Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues

chatgpt image 12 08 2025, 23 28 22

XEROX – CAMPANHA PUBLICITÁRIA EM 1975

Partilhe este Artigo:

… esta idade é estranha. Lembrar-me ainda e saber que vou esquecer. Essa é a justificação que dou a mim próprio para escrever estas palavras. Um dia irei precisar delas para voltar a lembrar-me. Um dia serão um mapa para voltar a encontrar o caminho que, hoje, ainda sou capaz de encontrar neste museu interior, privado e invisível.

Esta comunicação resulta apenas da vontade de partilhar convosco um momento da história de Portugal, um daqueles momentos que acontecem e que ajudam ao conteúdo da vivência de uma Nação.

Não é que a história que vos vou contar passe a fazer parte dos manuais ou das enciclopédias, mas é um exemplo daquilo que acontece no “dia a dia” das sociedades e que pouco ou muito acabam por influenciar.

As Testemunhas

Devo começar por vos dizer que, que eu saiba, há apenas duas testemunhas vivas destes acontecimentos: eu próprio e talvez o nosso Irmão Agostinho Garcia, que alguns dos meus Irmãos presentes conhecem bem.

E a história é a seguinte.

Tem a ver com o tempo que estamos a comemorar de há 50 anos e só possível por isso mesmo. Cada um de nós escreve, em cada momento da sua vida, um momento da história de Portugal, sendo que cada um desses momentos fica gravado a caracteres mais fortes ou menos fortes.

Há os chamados momentos importantes que farão parte dos manuais pelos quais os nossos netos e bisnetos irão aprender o que aconteceu antes deles próprios serem contribuintes, e há os momentos, quase todos, que não ficarão na história nem em parte alguma, exceto na memória de quem os viveu enquanto viver. Após isso, apagar-se-ão definitivamente e ficarão como nunca tendo acontecido.
E no entanto, aconteceram.

Pode ser catalogado como coincidência, como anedota, como resultado de acontecimentos outros, com os quais este nada teria a ver. Mas é resultado da história de Portugal e, para mim, é um momento que vivi e que integra a História do meu País — mesmo que não exista em parte alguma para além da minha memória. É por isso, e só por isso, que a trago aqui.

A Era da “Xerocópia”

Na década de 70 do século XX, o nome Xerox era sinónimo de fotocópia.
“Xerocópia”, como lhes chamavam os nossos irmãos brasileiros, pegou por cá também.

Praticamente única no mercado, comercializava o serviço de fotocópia com base em equipamentos com tecnologia Canon.

Havia reserva dos direitos de utilização e, embora a autoria fosse Canon, um acordo entre as duas partes deixava a Xerox com a utilização exclusiva daquela tecnologia.

Pela segunda metade de 1974, a reserva daqueles direitos caiu e foi um boom o aparecimento de marcas japonesas explorando a tecnologia da “Xerocópia”.

Para além da própria Canon, apareceram Ricoh, Minolta, Sharp e outras, agora com produtividade capaz de se bater com a hegemónica Xerox.

Soaram os alarmes em Palo Alto e a Rank Xerox fez, bem à americana, um flip-flop e pôs a Fuji-Xerox, no Japão, a produzir um equipamento que pudesse manter a qualidade e com alguma novidade que mantivesse a Xerox no topo.

Assim aparece a Xerox Série 3100.

Uma Revolução no Formato

Internamente, é uma rutura com a tradição Xerox.
Em vez de um enorme matacão, apareceu-nos um equipamento ligeirinho. Em vez dos monstros que eram os equipamentos até ali, surge uma mesa com rodas, pequena, cor de laranja, que era movimentada com ligeireza entre as secretárias para ir ter com o funcionário que precisava de a utilizar. O open space facilitava.

Em vez do “Silva” ter de se levantar da cadeira e ir à copiadora, era a copiadora que ia ter com o “Silva”.

Foi uma novidade absoluta. No âmbito dos primórdios da preocupação com o consumo de papel, a 3100 também reduzia a imagem, fazendo melhor utilização do papel: as folhas A4 podiam passar a A5, menos 50% de papel.

A Campanha Publicitária

Prepara-se o lançamento. A campanha publicitária passava pela TV com um filme feito nos EUA com uma história muito bem “parida”.

Resumo do anúncio:

Cena numa prisão. O chefe do gang, preso, recebe a visita de um companheiro ainda em liberdade. Tem em preparação a fuga e este companheiro exterior fica com a missão de descobrir e levar-lhe os desenhos e planos do edifício (esgotos, entradas e saídas, pontos mais defendidos e menos defendidos…).

O homem vai à vida e volta com a documentação completa:
— Chefe, tenho os planos.

Tenta passá-los pela janelinha, muito pequena, através da qual é estabelecida a comunicação. Azar: a janela é demasiado pequena e os documentos, demasiado grandes. Não conseguem passar.

O bandido sai e… aparece uma Xerox 3100, que não só fotocopia como reduz o tamanho das cópias. Está encontrada a solução! Rapidamente, estas cópias reduzidas são levadas ao “chefe” preso. Agora sim, já podem passar pela janela.

Cena final:
No pátio da prisão, junta-se o gang. O Boss distribui cópias do plano a todos, reunidos em grupo fechado no meio do pátio. O diretor da prisão desconfia, junta-se ao grupo disfarçado e recebe também uma cópia com o plano da fuga.

O filme estava muito bem feito, bem interpretado e com muita piada.

O Desfecho

O filme foi produzido nos EUA, adaptado e dobrado para Portugal, com um investimento sério. Uma “pipa de massa” em época de “vacas magras”. Mas era marketing a sério.

Lançamento marcado para 30 de junho de 1975, uma segunda-feira.

O material ficou pronto à última hora e, no sábado, dia 28 de manhã, reuniu-se a direção da companhia. Versão final do filme aprovada, planeamento pronto e força de vendas motivada.
O fim de semana foi de expectativa para o êxito da emissão televisiva. Convidaram-se amigos para não perderem o anúncio.

Mas…
Domingo, 29 de junho de 1975, quase à noite, toca o telefone:
— Óh JPS, está a ouvir as notícias?
— Não? Então oiça e depois ligue-me.

A rádio, a televisão e os jornais anunciavam:

Na prisão mais segura do país, em Alcoentre, tinham acabado de fugir 89 pides

E agora…?
Se o anúncio sai, é uma bronca.
Se não sai, é dinheiro perdido.

O anúncio não saiu!

J. Paiva Setúbal M∴M
(A propósito da fuga de 5 presos da prisão de Alcoentre)

Partilhe este Artigo:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *