Sexto V:.M:. – Vitor E. C.

O sexto Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues foi Victor E. C.. Exerceu funções entre Setembro de 1995 e Setembro de 1996.

Se o Venerável Mestre anterior, Manuel A. G., era um homem corpulento, Victor E. C. não o era menos. Se aquele era um homem bonacheirão, este elevava essa característica ao superlativo absoluto. Se um era um grande amigo de Fernando Teixeira, o outro não o era menos. Se um era aficionado pela tauromaquia, ao outro esta corria-lhe nas veias. Se um era monárquico, o outro monárquico era. Vistas à distância do tempo as características pessoais de um e de outro, efectivamente ressaltam as semelhanças, as similaridades de interesses, as cumplicidades de gostos, o paralelismo de percursos, que ambos partilhavam.

Porém, pese embora estas semelhanças, Victor E. C. não era e não foi um clone de Manuel A. C., longe disso. Desde logo, enquanto este irradiava serenidade, aquele transbordava simpatia. Mais uma vez, a Loja era dirigida por quem privilegiava a afectividade e a camaradagem. Era quase como se um invisível sistema de pesos e contrapesos actuasse sobre os destinos da Loja, pontuados pelo rigor, mas também pela afectividade, umas vezes com um pouco mais de prevalência daquele, outras com uma nota mais acentuada desta.

Victor E. C. era, à época, um bon vivant, bom garfo e bom copo. Hoje, não será já tanto assim, que a idade já pesa e os cuidados com a saúde já o obrigam a cuidar do acerto de como come e a uma especial moderação no que a líquidos tange. Além disso, era e continua a ser um excelente conversador, um grande organizador de convívios, viagens, visitas e eventos.

Com ele, a Loja desdobrou-se em actividade, em colaboração com a Grande Loja, em visitas, em organizações. Ainda hoje as mulheress dos obreiros dessa altura dizem que “no tempo do Victor é que vocês sabiam organizar coisas…”.

Victor E. C. manteve a Loja no rumo que a mesma levava. O número de obreiros continuava a aumentar. Os Aprendizes e Companheiros continuavam a ser bem formados e a só serem passados a Mestres após terem permanecido nos seus graus o tempo que se entende como necessário e após terem evoluído como devido. A tudo isto acresceu o apreço de Victor E. C. pela vertente do convívio social e a sua capacidade de organização nesse aspecto.

Esta característica não fora, porém, consensual. Antes da sua eleição, um obreiro então com alguma influência na Loja, defendeu, em conversas com outros obreiros, que alguém com esse gosto pelo convívio social, que ele considerava fútil, não tinha as melhores condições para dirigir a Loja e defendeu que a Manuel A. G. sucedesse, não o seu 1.º Vigilante, Victor E. C., mas sim o seu 2.º Vigilante, José Ruah. Essa tese não mereceu vencimento. Praticamente todos os demais entenderam que não só Victor E. C. tinha todas as condições para dirigir a Loja, mas também merecia ser eleito para essa função, pelo esforço e dedicação que há vários anos dedicara à Loja e à Grande Loja, em leal colaboração e esforçado apoio a quem dirigia uma e outra. Além do mais, todos ainda tinham fresca na memória a forma como fora resolvida a transição do segundo para o terceiro Venerável Mestre e as vantagens que existiam em não haver lutas pelo poder na Loja, seguindo-se uma natural e aceite ordem de transmissão de funções.

Em boa hora se tomou tal decisão! Tivesse-se então abandonado o critério que era seguido e cedido à pretensão de ultrapassar Victor E. C. por José Ruah e amargamente pagaríamos o preço no ano seguinte!

É que, se na Loja tudo corria bem, no conjunto da Grande Loja não era bem assim: um poderoso grupo estendia a sua influência, ganhava posições, preparava o assalto ao quimérico poder. As nuvens acastelavam-se no horizonte. A tempestade veio a rebentar no ano seguinte. E se José Ruah tivesse sido Venerável Mestre em vez de Victor E. C., não beneficiaria a Loja da sua firmeza ao leme quando a colossal borrasca nos atormentou! Mas essa é matéria para outro texto…

No ano maçónico de 1995-1996, apesar destas nuvens negras no horizonte, a Loja manteve o seu curso pujante e beneficiou de um excelente ano sob a direcção agradável e convivial de Victor E. C.. Todos juntos! Mal sabíamos nós que esse era o último ano em que o caminho era comum para todos!

Victor E. C., pelos profundos laços de amizade com Fernando Teixeira, quando a crise sobreveio, não podia, desde logo por razões afectivas, deixar de o seguir. Mas teve um comportamento exemplar na execução do que veio a ser por todos decidido. A ele muito se deve que a Loja Mestre Affonso Domingues seja uma e una. A ele e outros se deve a recuperação dos nosssos bens. Nunca, nem nos tempos mais dolorosos e profundos de separação, o Victor E. C. deixou que a sua Amizade por todos, os que optaram por um lado e os que escolheram outro caminho, fosse perturbada. Acompanhou Fernando Teixeira e isso só lhe ficou bem. Quando Fernando Teixeira passou ao Oriente Eterno, ficou liberto das obrigações que a sua profunda amizade por ele lhe impusera. Entretanto, passou por crises pessoais, profissionais e de saúde que limitaram a sua acção. Mas sempre continuou em estreita ligação connosco. E, um dia destes, espero, e espero não me enganar, estará de novo no lugar que é seu, na Loja Mestre Affonso Domingues, num confortável retomar de cumplicidades.

In Blog “A Partir Pedra” – Texto de Rui Bandeira (12.07.07)

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