O Poder da Palavra

O PODER DA PALAVRA

O poeta Eugénio de Andrade escreveu:

“A palavra chega húmida do bosque… temos que semeá-la;
Chega húmida da terra; temos que defendê-la”

Cabe nos a nós, maçons encontrar a palavra, semear a palavra e defender a palavra. Porque na palavra, na sua espessura, na sua claridade, reside a fonte do único e verdadeiro poder, o poder da sabedoria, o poder por que os maçons lutam e sempre lutaram.

Já assistimos a escaramuças de irmãos nossos em que se utilizaram meios impróprios para os fins em causa e muitas vezes, no fragor da luta, se esqueceu a componente espiritual que a um maçon se exige, reduzindo-se aparentemente a confronta a uma luta cega pelo poder.

Há quem pense que o poder reside na cadeira onde se senta, ou nas próprias insignias que o identificam. Há quem acredite cegamente que o poder reside no metal e na sua ostentação. Há quem pense que o valor de um homem reside na sua conta bancária ou no transitório cargo politico que ocupa.

É natural que se caia neste erro grosseiro nestes tempos que correm. Também no seio da maçonaria se teriam de sentir as nefastas consequências de uma sociedade neo-liberal, globalizante, reduzida aos estritos valores mercantis.

O pior ainda é quando nos apercebemos de que, quem luta pelo poder apenas pela vaidade de o possuir ou por outros e mais obscuros interesses, se veste frequentemente de palavras aparentemente sábias e justas mas que a pouco e pouco se vão esvaziando de sentido e tornando em fórmulas sem alma nem conceito.

Nós que ouvimos e atentámos nas vozes antigas, sabemos como é pobre um poder tão pequeno que se fica pela superficie e pela aparência e não chega à essência das coisas e ao centro da grande obra espiritual.

Dizia Louis Amstrong, grande trompetista de jazz que também foi nosso irmão maçon:

“Quem pergunta o que é o jazz jamais conseguirá saber o que é o jazz.”

Parafraseando o seu pensamento poderiamos dizer que quem julga que detém o poder nunca há de deter verdadeiramente o poder.

Um dos grandes ensinamentos que podemos recolher da história da franco-maçonaria e da história dos homens é que o único poder, o verdadeiro poder, é o poder da palavra e do respeito pela sua dignidade.

Grandes foram os conquistadores, os generais, os reis, os ditadores. Maiores foram os homens da palavra, os arquitectos do sonho, os construtores da liberdade, os mineiros da alegria, os poetas de todos matizes e expressões.

Os que só querem sentar-se na cadeira do poder ficam nus quando se apeiam.

Os outros, os artesãos da palavra, os que vivem sem cálculo nem inveja, levam consigo, para onde quer que vão, esse imenso poder que talvez não seja mais que um coração grávido de pombas.

Mesmo quando estes homens morrem, as palavras que semearam continuam a dar frutos pelos séculos fora, muito depois de ter sido esquecido o nome daqueles que se amarraram às exigências do dinheiro e à vaidade transitória dos poderosos de ocasião.

Falo daqueles que não vacilam, que não renegam, que se recusam ao cálculo de ocasião e à transitoriedade para manter acesa a verdade da palavra.

Lembro alguns que viveram e morreram pela palavra e assim entraram na História e vão servindo de candeia a todos os homens justos. Lembramos Jesus Cristo, Ghandi, Martin Luther King e tantos outros.

Lembro todos os que não inventam justificações de circunstância para voltar atrás na palavra.

Lembro também aqueles, cujo coração caloroso e desarmado de obscuras intenções os levou a cometer inadvertidamente erros graves e fatais. E cabe lembrar que foi o próprio Salvador Allende que trouxe para dentro da maçonaria o ditador Pinochet que tanto se destacou pelos crimes cometidos contra o seu povo e contra a humanidade.

Se queremos que a franco-maçonaria cresça e se afirme em Portugal como uma força respeitada temos de pegar na palavra e fazer de cada loja uma oficina de reflexão, de livre pensamento, de procura da luz.

A procura da luz, procura do conhecimento e do saber, é um caminho da convergência ecuménica e transdisciplinar de olhares e da sua potenciação através do símbolo.

O poeta tem muito a aprender do economista. E este com o músico. E o músico com o engenheiro. E o engenheiro com o psicólogo. E o psicólogo com o pintor. E o pintor com o marceneiro. E o marceneiro com o arquitecto. E o arquitecto com o cenógrafo. E o cenógrafo com o polícia e o polícia com o poeta.

Todos temos a aprender uns com os outros, a compartilhar pedaços da vida que a cada um é dado viver e que, por serem alheios ao outro, o podem enriquecer, iluminar e tornar menos agreste o seu próprio caminho.

Mas não nos enganemos. Christian Jacq, em “A viagem iniciática”, afirma que “…a clareza reside no teu olhar, não na obra.”

Quem procura aqui, ou seja onde for, um mistério escondido, não o encontrará. Não há nenhum mistério nem nenhuma revelação que não esteja consubstanciado na sua demanda. Não há nenhum caminho para além do caminhar.

Christian Jacq lembra-nos ainda, na mesma obra que “O homem espiritual é instruído pelos símbolos…”. Mas atenção de novo. Se reduzirmos o símbolo à sua casca e não tivermos dele uma vivência interiorizada e poética, arriscamo nos a tornar nos em papagaios de fórmulas vazias, mistificadores bem falantes que só impressionam os incautos, os tolos ou os oportunistas.

Num pais onde a iliteracia é arrasadora, o caminho passa por um grande esforço no sentido de reforçarmos o rigor intelectual e espiritual e elevarmos a exigência ética, plástica e cultural. Passa ainda por mudar hábitos de consumo cultural. Por elevar os critérios que determinam o gosto. Por fazer com que as elites o sejam num sentido extensivo da palavra – e quando falamos de francomaçonaria estamos, quer o queiramos quer não, a falar de uma certa forma de elites.

A BRANCA FOLHA DE PAPEL

(João Abel Manta)

“Chegámos tarde demais para os deuses
e cedo demais para o Ser”

HeIdegger

A mão do pintor tacteia o mar de pequenas ondas brancas
da folha de papel.

Desprende um cheiro grávido
das cores de ouro e luz
com que a terra se veste
em cada dia.

Os dedos do pintor afagam
a folha de papel e sabem
que outras mãos sobem
da textura levemente irregular
e vêm ocupar as suas,
infectá-las
e pedir lhes o severo pão
do oficio
e da memória.

O pintor encosta o rosto
à brancura do papel e ouve o cântico
das mãos que cortam ramos
e derrubam troncos
e das outras que amassam celulose e a transformam
em rolos e rolos de uma matéria fina mas rugosa
própria para servir de chão ao baile
do lápis de grafite.

O pintor coloca a folha branca no centro
da mesa de trabalho.

É então que o suor
o sofrimento
as lágrimas
de muitos outros homens lhe sobem
pelo gesto,
tocam
na ideia,
exigem um secreto e cuidadoso ritual.

Os olhos do pintor pedem misericórdia
para que um peso assim lhe seja leve.

Solta a mão
abraça o branco
e deixa a medo que uma forma se insinue
um esboço de perfil
uma pálida promessa
de estrutura.

A linha avança
retrocede
tropeça na sua própria cauda e
de repente
sem ninguém saber de onde chegou,
desponta, ao canto, um pormenor
um detalhe colhido num beco nocturno
um pedaço de aflição
uma mancha de vinho
uma mão pousada no azul
a caricia sépia que o Outono oferece
às mulheres que passam apressadas
rente ao vento.

Agora, o pintor já está cercado.

A forma cresceu
criando uma teoria
do perfeito casamento
entre o corpo e a palavra,
um bordado de zangas e de beijos
de contrastes
complementos
gritos
e suaves ondas a morrer na areia.

Inquieto
bêbado de deuses
o pintor afasta-se da folha de papel
procurando aqui
ali em si
o sagrado sopro
o toque
o misterioso fecho de uma abóbada.

Tenta medir a coerência do jogo de contrários:

claro e escuro
luz e sombra
cor e timbre
tessitura.

A noite cobre se de sombras
e o pintor recua e avança
sem sair da sua febre
até ao momento preciso
em que os cometas
vêm despentear
o sono das crianças.

É então
que a branca cabeça do pintor cai
sobre a folha de papel
consumindo forma e fundo numa mesma
esfera.

Por um momento parece
que todos os homens se juntaram à sua volta
na brancura
e tudo o que está em baixo está em cima
e o mundo descansa
por uma vez
com justeza e perfeição.

O Sentido

(Joaquim Rodrigo)

“O importante é o princípio porque depois
começa o fim.”

Pablo Picasso

I

Um dia
de manhã
ao acordar
tomamos conhecimento
de que nada faz sentido.

Riso ou neve
nada faz sentido.

Olhamos em redor.

Encontramos o quê?

Pequenos fragmentos de mundos submersos
membranas calcificadas
palavras abstractas
incêndios sem qualquer correspondência
com a música nascida
a desse imenso continente
que é e foi e há de ser a comoção.

Um dia
de manhã
ao acordar
o mundo torna se inesperadamente estreito.
e o tempo dos assassinos
vem instalar se
com o seu doce sorriso sedutor.

Tudo fica ao rés de um fogo que se apagou
e Deus,
tenha o nome que tiver,
terra ou mar ou vento,
não é mais que uma peça encravada
no remoer desdentado
de algum mecanismo inútil.

II

Um dia
de manhã
ao acordar
tomamos conhecimento
de que tudo faz sentido
se soubermos encontrar o ovo essencial
a fonte
o nome da alegria.

Rejubilamos então.
Beijamos a raiz do cedro
voltamos ao calor da terra
e partimos a arder através da nolte.

Aprendemos o caminho
nos secretos mapas guardados
na palma da mão
dos ferreiros
dos oleiros
dos que inventam pássaros de vidro
no esconso da escuridão.

E é então que as cores da terra
nos vêm chamar
para nos instilar a chama
do arco do seu saber.

Vermelho e sangue
preto e ocre
são as cores
e delas somos feitos.

E há um risco demarcando o território do silêncio
e outro anunciando a chuva.

Barro
lama
lume.
Tudo quanto somos
vinha anunciado em cada grão.

E as sementes cantam.

E a estrela brota 5 vezes de dentro do coração.

Basta ler o relâmpago.

E soltar a palavra.

E declinar a cor.

Autor Desconhecido

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