Desbravando os mistérios da Peste Branca

Venerável Mestre,

Meus queridos irmãos em todos os vossos graus e qualidades,

À Glória do Grande Arquitecto do Universo,

Pulmões

Enquanto Aprendiz iniciei o trabalho do meu aperfeiçoamento pessoal, desbastando pacientemente imperfeições do meu espírito e da minha personalidade através da autocrítica e auto-conhecimento, e da determinação moral e força de vontade, removendo aresta atrás de aresta da minha Pedra Bruta na tentativa de lhe atribuir uma forma cúbica regular de modo a ser utilizada na edificação do Templo projectado pelo Grande Arquitecto do Universo, e entreguei-me ao estudo do significado dos diversos símbolos e linguagem utilizados na nossa Augusta Ordem.

Agora, após a passagem da perpendicular ao nível e com a capacidade de por em práctica os conhecimentos adquiridos, volto a minha atenção, o meu interesse e o meu estudo para um plano mais físico, mais material, mais terreno. Entrego-me assim a um novo trabalho, ao conhecimento do Homem, das Artes e Ciências, mas prosseguindo sempre sem descuro o trabalho de aperfeiçoamento e elevação espiritual principiado no grau de Aprendiz, pois no grau de Companheiro aprendemos que o espírito sem a matéria ou a matéria sem o espírito de pouco valem, pois é só através da união destes dois elementos universais que o Homem se completa, progride, se torna melhor.

É então nessa busca do saber, nessa senda do conhecimento, incidindo sobretudo nas áreas científicas, confesso, por formação ou deformação académica e profissional, que a minha instrução vai decorrendo. Assim, e sendo eu um homem de ciências gostaria de partilhar convosco algum do meu conhecimento sobre uma destas áreas em particular, pela qual eu nutro um carinho especial.

O meu domínio científico integra-se nas ciências biológicas e laboratoriais, numa área inerente à investigação clínico-laboratorial da Tuberculose Pulmonar. Mas antes de me debruçar mais sobre este tema, apresento-vos uma breve descrição histórico-epidemiológica desta doença, tentando sempre me abster o quanto possível de utilização de terminologia técnico-científica específica desta área.

A Tuberculose é uma doença infecto-contagiosa crónica, que acompanha os seres humanos desde a pré-história, existindo registos históricos desde há cerca de 5000 em países como o Egipto. Um dos primeiros casos epidémicos de tuberculose registou-se na Europa no início do Século XVII prolongando-se por mais de 200 anos, vindo a ser conhecida mais tarde como a “grande Peste Branca”. Durante este período, a morte por tuberculose foi considerada inevitável, tendo sido a principal causa de mortalidade em 1650. A elevada densidade populacional e as más condições sanitárias que caracterizavam as cidades em crescimento da Europa e da América do Norte providenciaram as condições necessárias para a disseminação da Tuberculose Pulmonar.

O primeiro progresso real para o conhecimento desta doença surgiu quando o bacteriologista alemão Robert Koch, em 1882, isolou o agente etiológico, vulgarmente conhecido como bacilo da tuberculose, tendo sido mais tarde galardoado com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1905.

A partir da década de 40 do século XX, devido aos avanços terapêuticos originados pela descoberta de diversos antibióticos com actividade contra este bacilo, bem como ao desenvolvimento socioeconómico nos países industrializados, assistiu-se a uma diminuição dos casos de Tuberculose Pulmonar. Este declínio das taxas de incidência anuais conduziu ao desinteresse no combate e posterior abandono dos programas de controlo da Tuberculose nos países industrializados.

Devido a estas acções, verificou-se nos Estados Unidos da América, entre 1985 e 1993, um aumento de 14% da taxa dos portadores de Tuberculose. Desde então, o número de casos tem vindo a aumentar na maioria das regiões do globo, levando a Organização Mundial de Saúde a considerar esta doença uma emergência global.

Diversos factores estiveram na origem da reemergência da Tuberculose Pulmonar, incluindo a pandemia do Vírus da Imunodeficiência Humana/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, terapêuticas supressoras do sistema imunitário, degradação das condições socioeconómicas, transmissão em instituições de saúde, de apoio social e prisões, toxicodependência, taxas elevadas de afluência de imigrantes oriundos de países com índices elevados de Tuberculose e o aparecimento de bacilos resistentes aos antibióticos efectivos utilizados no combate a esta doença.

Actualmente, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a Tuberculose mata aproximadamente 1,7 milhões de pessoas por ano, incluindo 450 mil pessoas infectadas com o Vírus da Imunodeficiência Humana, e aproximadamente 9 milhões de casos desenvolvem-se todos os anos e cerca de um terço da população mundial encontra-se infectada.

É então na tentativa de contribuir para a melhoria deste negro cenário que vou desenvolvendo os meus estudos e o meu trabalho, integrado numa equipa multidisciplinar. Para além da prestação de serviços à comunidade na área do diagnóstico laboratorial da tuberculose pulmonar, a minha outra valência centra-se na investigação da acção de compostos farmacológicos, com potencial efeito adjuvante, potenciadores da actividade dos antibióticos utilizados comummente na terapia da tuberculose. Com a emergência de bacilos resistentes aos antibióticos utilizados na terapêutica da tuberculose pulmonar, como referi anteriormente, foram desenvolvidos e sintetizados novos agentes com acção anti-bacilar, mas cuja constituição química ou dosagem necessária para que sejam efectivos apresentam níveis de toxicidade elevados para o Homem. É como diz o ditado popular “Se não se morre do mal, morre-se da cura”. Para além desta toxicidade, estes novos antibióticos possuem um valor monetário aproximadamente dez vezes superior comparado com os anteriores, tornando impraticável a sua aplicação nos paises em desenvolvimento carênciados fianceiramente, os quais, por sua vez, possuem as taxas de incidência de Tuberculose mais elevadas. Assim, no sentido de reabilitar os antibióticos utilizados inicialmente, temos conduzido ensaios onde conjuntamente a estes fármacos adicionamos outros compostos já conhecidos e utilizados à vários anos noutras áreas de intervenção clínica, como por exemplo a psiquiatria, numa abordagem terapêutica adjuvante, e os resultados obtidos a nível laboratorial têm-se mostrado bastante promissores na reversão da resistência bacilar.

Esta é uma área que, sem dúvida, me preenche de uma grande satisfação, pois para além de uma realização pessoal enorme, sinto que trabalho em prol de um bem maior. Mas o fim desta jornada ainda está longe. Ainda existe muito trabalho por fazer, muitos ensaios a realizar. Por isso, todos os dias estudo, penso, reflito, procuro artigos e trabalhos desenvolvidos por outras equipas que me permitam ajudar no nosso, de modo a poder formular e testar hipóteses científicas coerentes e relevantes. Enfim, de forma a providenciar que mais uma luz se acenda, que mais uma estrela nos ilumine e guie neste terreno desconhecido, e nos ajude a desbravar os mistérios da Peste Branca e nos permita tornar o Mundo um pouco mais Justo e Perfeito.

Disse, Venerável Mestre,

J:.R:. – C:.M:.

R:.L:.M:.A:.D:., 24 de Novembro de 6010

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