Venerável Mestre,
MQI em vossos Graus e Qualidades,

Enquadramento
O MC é um dos onze oficiais previstos no Art.º 8 do Regulamento Interno da RLMAD, ocupando a sétima posição em termos de precedência simbólica do Cargo.
O Art.º 15 do citado Regulamento define as suas funções como sendo as de “zelar pela boa ordem, harmonia e cumprimento formal do ritual em todas as sessões de Loja, tendo como joias ou insígnias, nos termos do Art.º 46 do já citado Regulamento Interno “duas espadas cruzadas e bastão vertical no centro”.
Tal como os restantes Oficiais da Loja (com exceção do Tesoureiro, que é cargo eleito e apenas instalado pelo VM) o Mestre de Cerimónias é nomeado entre os MM pelo VM e por ele instalado e/ou exonerado.
Mestre de Cerimónias no REAA, o O Guia nas deslocações em Loja , O Peregrino da Circum-deambulação sagrada, do Ocidente ao Oriente, do Norte ao Sul…..
Para dar cumprimento às suas funções, o MC é o Guia nas deslocações em Loja, tanto para Obreiros como Visitantes, devendo para tal ser conhecedor do Ritual e respetivo Simbolismo, para poder assegurar durante a Sessão o papel que lhe compete de coreógrafo de toda a liturgia, desde a preparação da Loja, à Abertura e Encerramento dos Trabalhos, funções em que é coadjuvado e acompanhado pelo I Experto.
O sentido das deslocações em Loja (salvo raras exceções devidamente assinaladas no Ritual) é normalmente Dextrocêntrico, ou seja, efetuado no sentido do andamento dos ponteiros do relógio, a que René Guénon chama igualmente o “sentido solar”, por oposição ao “sentido polar”, sinistrorsun.
Note-se que o sentido Dextorsun ou Dextrocêntrico é o mais frequente e tradicional nas Cirvum-ambulações de caracter ritual, entendido como “sentido propício” em civilizações antigas, como o hinduísmo e o budismo.
Já o sinistrorsun, sentido polar ou sentido contrário aos ponteiros do relógio, é mais frequente nas cerimónias de tradição muçulmana.
Note-se a propósito que tanto o sentido de rotação da Terra sobre o seu próprio eixo como a translação à volta do Sol, são ambos Sinistrocêntricos, que era igualmente o sentido de marcha usado pelos maçons operativos, neste caso justificado também pelo facto de na Idade Média o Trono do VM operativo ser colocado a Ocidente para que desse ponto o Venerável pudesse simbolicamente comtemplar o nascer do Sol.
A Centelha Divina, Chama, Luz e Calor
Antes da Abertura dos Trabalhos, só o VM torna visível a sua Estrela.
Com o ritual de abertura dos trabalhos e executando o comando que é dado pelo VM, compete ao MC “carregar e tornar visíveis as estrelas” dos quatro pilaretes que definem o Quadrado Oblongo, símbolo do Mundo Ideal na Loja.
Três dessas estrelas são visíveis e adornam os pilaretes Jónico (Sabedoria), dórico (Força) e coríntio (Beleza). As suas respetivas estrelas são carregadas pelo MC em execução da ordem do VM, nesta sequência.
O quarto pilarete, virtual (situado no ângulo mais perto da pedra bruta) representa virtualmente a Inteligência.
Note-se que as velas no início da Maçonaria especulativa eram feitas de cera de abelha praticamente pura, com todo o simbolismo associado.
Com o tempo, vieram a ser usadas velas com algum teor de estearina, para diminuir o preço.
Idêntica dinâmica aconteceu nas Igrejas (a influência das várias denominações cristãs e judaico-cristãs na Tradição “litúrgica” maçónica é e sempre foi considerável no Rito Escocês Antigo e Aceite).
O uso das velas tem um sentido simbolicamente profundo e daí a importância da sua preservação, em boa hora decidida pela Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues.
Por um lado, são a alegoria em Loja ao “Fogo Sagrado” de herança persa, razão pela qual, tal como no zoroastrismo, são mantidos relativamente ao acender e apagar determinados procedimentos.
Por um lado, todas as “estrelas” devem ser acesas a partir da chama da Estrela Mãe em Loja, a que é acesa pelo VM e que ilumina o seu altar.
Ou seja, várias Estrelas, mesma Centelha divina que através do VM que integra e preside as Três Luzes, conectam a Loja e seus Obreiros à Centelha Divina simbolizada pelo Delta Luminoso).
Essa chama deve ser o mais pura possível, tal como no zoroastrismo.
O recurso a isqueiro é opção conveniente mas errada do ponto de vista do ritual.
O uso de fósforos, é opção menos má, mas igualmente não é o ideal.
Na Tradição maçónica usava-se uma “vela intermédia” que assegurava a transição entre as circunstâncias do acendimento e a passagem da chama “pura” diretamente através do pavio para a estrela do VM, origem de todas as outras em Loja como antes referido.
Também relativamente ao apagamento das velas, o ritual do REAA estabelece procedimentos.
Se a primeira vela a ser acesa em Loja é a do VM, é também ela a última a ser “abafada” com a alfaia própria, nunca com água e nunca por sopro, tal como no Zoroastrismo. Até hoje fiéis desta antiga religião no território que hoje é aproximadamente o Irão, continuam a manter até hoje templos em que ao longo de séculos o “fogo eterno e sagrado”, com dispositivos e cuidados especiais, sempre se manteve aceso.
Mesmo na esfera profana, os Antigos persas “abafavam” o fogo com terra, nunca o extinguiam com água, nem a chama com sopro.
Refira-se ainda que dessa mesma herança persa advém o ritual cristão do “Cirio Pascal”, que se mantém até aos nossos dias e que de forma mais direta, como tantas outras cerimónias, terá certamente inspirado o ritual maçónico.
O Bastão
É um atributo distintivo em Loja, usado pelo Mestre de Cerimónias e portador de uma simbologia rica: retidão, autoridade, guia, caminho iniciático, tradição.
A sua herança mais direta veio da maçonaria operativa medieval em que era usado também como padrão de medida (nele estão representadas, em sucessão, várias medidas antropométricas históricas, como o palmo, o côvado, o pé, ….sendo a medida do bastão o somatório dessas medidas).
Para além deste uso operativo, são conhecidas desde as civilizações mais antigas os usos deste adereço, humilde e despretensioso na origem, mas que atingiu símbolos, usos e dignidades diversas nas mãos de faraós ou reis (a conhecida e prestigiada coleção de bastões de Tutankhamon), autoridades eclesiásticas ( o “báculo” que é a insígnia dos Bispos), de sacerdotes (o “lituus” dos augures romanos usado para delimitar espaços sagrados e observar os sinais divinos)…..

A propósito dos “augures” romanos e seu “lituus”, uma curiosidade linguística que nos mostra a continuidade histórica entre passado e presente, ritualmente codificado na Maçonaria, mas também noutros aspetos da vida profana do Homem.
A palavra “inaugurar” que hoje usamos, significando “ato de tornar público pela primeira vez”, vem justamente do latim “augures” (sacerdotes adivinhos), ou seja, inaugurar é, ontem como hoje, em diferentes contextos, a cerimónia de “consagrar pelos augures….” tal como, uma outra palavra, o verbo “orientar” faz justamente referência ao “virar-nos para oriente” para acionar o nosso GPS cognitivo.
Regressando ao bastão do Mestre de Cerimónias, a soma das várias medidas representadas no bastão deverá ser de 124, 72 cm, sendo que o conjunto das sucessivas medidas prefigura uma série de Fibonacci cuja razão é o número de ouro (1, 618).
Este tema do simbolismo ligado à função do Mestre de Cerimónias e de forma mais abrangente, aos Trabalhos em loja, está longe de ser esgotado através de uma sucinta peça de arquitetura, simples prancha, como esta que aqui vos apresentei, e com a ajuda do G.A.D.U., a permissão do nosso VM e a vossa paciência, tornaremos ao tema.
Disse V M
AIP, MM
Consultada bibliografia vária, designadamente Regulamento Interno RLMAD, René Guénon, Jules Boucher, Oscar Wirth, Albert Pike e Irène Manguy.


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