Affonso Domingues era um jovem companheiro que se encontrava numa fase avançada no desenvolvimento dos seus estudos da arte da cantaria. A guilda onde se encontrava a aprender tão nobre ofício era uma das mais respeitadas do reino de Portugal. Não era o único companheiro, com ele estava o Mateus. O Mateus era proativo, cheio de iniciativa e tão inteligente que muitas vezes até perdia a motivação por não ser compreendido. Affonso era ativo que chegue e suficientemente inteligente para não se desmotivar.
Na preparação para a celebração dos 25 anos da guilda o 1V∴, João, pediu aos dois companheiros para fazerem algo para o dia que se avizinhava.

Affonso pensou em fazer um altar de pedra simples para a celebração do ritual:
— João, estou a pensar fazer um pequeno altar em pedra para o nosso V∴M∴ poder fazer o ritual nesse dia — disse pedindo o seu assentimento para a tarefa — o atual é em madeira e já está a perder dignidade.
— Tens razão, aquele altar qualquer dia cai. Um em pedra ficaria muito melhor e seria mais duradouro. Mostra-me o desenho que fizeste.
— Está aqui! O que achas?
— Por mim está perfeito. Vou mostrar ao V∴M∴ para ver se aprova. Vai juntando os materiais que ele quase de certeza que vai aprovar isso.
Entretanto, Mateus também se encontrava a pensar fazer algo. Tinha de superar o seu colega. Foram os dois iniciados no mesmo dia e passaram a companheiros também no mesmo dia. Algo tinha de os desempatar, não podiam ser sempre comparados como iguais. O melhor seria ser exaltado mestre mais cedo do que o outro e quem fosse exaltado primeiro teria mais hipóteses de ser V∴M∴ primeiro.
— João, quero fazer uma moldura em pedra para aquele vitral que foi acidentado no ano passado — disse assertivamente ao seu 1V∴ — temos de embelezar este templo.
— Boa ideia Mateus. Vou falar com o V∴M∴ para ele aprovar. Aquela moldura está mesmo a precisar.
Mateus, que tinha as suas ambições, resolveu pôr mãos à obra ainda antes da aprovação do V∴M∴.
A aprovação do V∴M∴ chegou, como esperado, aos dois obreiros e ambos puseram mãos à obra, embora Mateus já trouxesse alguma vantagem.
Mateus, que já apresentava o seu talento nas suas obras, começou a executar o trabalho. Fez a moldura mais bonita do mundo, uma verdadeira obra inigualável. Encheu a sua moldura de anjinhos, flores, enfeites e até rosas. Realmente estava muito bonito. Enquanto trabalhava, ia falando com os outros mestres, pois estes é que importavam para o seu objetivo de vir a ser mestre o mais rápido possível daquela guilda:
— Estás a ver Agostinho, isto é que vai ser, aquela janela nunca ficou tão bonita, vai ser a glória da nação — dizia para um dos mestres, ou então referia a outro — Esta moldura vai ficar para a história da maçonaria.
Entretanto ia dando uma mãozinha aqui e ali, sempre para ajudar os mestres pois os companheiros e aprendizes ainda tinham um caminho longo para fazer e o dele seria, com certeza, mais curto.
Affonso Domingues foi cumprindo o seu desenho original. Umas vezes pedia ajuda para fazer alguma técnica que estivesse menos à vontade, outras vezes perguntava a João se deveria, ou não, sair do traçado original do desenho.
Chegados a uma semana antes do grande evento, as duas obras estavam acabadas. Claro que a de Mateus já se encontrava mais do que acabada. Estava linda, esplendorosa, magnífica, uma verdadeira obra-prima. O altar de Affonso Domingues estava um pouco mais humilde, fiel ao desenho original apresentado, apenas com pequenas modificações. Era um altar que não se destacava, pois estava dentro da estética arquitectónica do templo.
Nesse dia o V∴M∴, que tinha estado por fora, foi ver os trabalhos no templo.
— Affonso Domingues fez um belo trabalho — disse a João, o V∴M∴ — está simples, mas bonito, e não fica com ar tosco do anterior.
— É verdade I∴ Pedro, o Affonso tem estado no bom caminho, pede ajuda quando precisa, a maior parte do tempo está em silêncio, concentrado no seu trabalho. É bom observador e aprende rápido.
— Vamos ver o trabalho do teu outro Companheiro.
Foram andando, verificando alguns dos trabalhos que estavam a ser feitos, grandes obras que o V∴M∴ só dava aos seus experientes mestres. Pararam em frente à moldura de Mateus.
— João, está aqui uma moldura muito enfeitada. Diria até, demasiado — disse o V∴M∴ Pedro com um certo cepticismo — vamos ver se esta obra fica bem no local da janela.
Antes de João falar, Mateus começou logo a trabalhar na defesa do seu glorioso trabalho:
— M∴Q∴I∴ V∴M∴, muito me apraz teres verificado que o meu trabalho é vistoso e bonito, digno apenas dos teus gloriosos mestres. Como podes ver a arquitetura deste trabalho é de uma estética inigualável neste templo…
— Podes parar de glorificar esse teu trabalho. Realmente está bonito, e fica bonito sozinho, se não o colocares no sítio que lhe está destinado. Se o colocares lá vai ficar completamente fora da estética do templo.
— Mas, V∴M∴, isto é uma obra-prima da arquitetura, não podes fazer isso.
— Posso e vou fazer — disse assertivamente o V∴M∴ — João, tu próprio vais acompanhar de perto o trabalho. Vais dar os instrumentos de aprendiz ao nosso companheiro, um maço e um cinzel, e vais ensiná-lo a desbastar esta obra até ficar com a estética pretendida.
Mateus executou o seu trabalho. Inicialmente ficou triste por não se terem aproveitado todos aqueles rococós e por ter sido ultrapassado por Affonso Domingues. Passados 3, 4 dias percebeu que a sua atitude egoísta é que o atraiçoou. Foi a ganância de querer espezinhar de forma indireta o seu colega, de querer atalhar um caminho sem atalhos.
Acabado o aperfeiçoamento do trabalho, o V∴M∴, chamado pelo 1V∴, foi verificar o aperfeiçoamento que tinha solicitado:
— Muito bem, esta janela está dentro da estética do edifício, não está tosco, mas também não é eloquente. Estás de parabéns M∴Q∴I∴. Aprendeste alguma coisa com este episódio?
— Aprendi sim, V∴M∴. Aprendi que o entusiasmo é o que dá força à iniciativa, mas deve ser controlado pois, com demasiado entusiasmo somos impulsivos e temos as nossas paixões mal controladas.
— Muito bem meu querido companheiro, vejo que percebeste a lição. A iniciativa move o cinzel, o entusiasmo movimenta o malho, e o esquadro junto com o compasso moderam as paixões. O importante não és tu, mas o trabalho do templo.
O dia dos 25 anos da guilda foi glorioso. A guilda foi visitada por vários mestres de outras guildas que ficaram entusiasmados com a proatividade daqueles obreiros. No momento em que o V∴M∴ subiu ao altar, todos puderam verificar a sua magnitude e grandiosidade. Deram os parabéns ao V∴M∴ por aquele altar que o enalteceu. Era esse o objetivo de Affonso Domingues ao desenhar aquela obra. Não era fazer uma grande obra para se autoglorificar, mas sim glorificar a sua guilda fazendo um altar humilde à vista, mas poderoso na sua alma.
Talvez toda esta história tivesse corrido de forma diferente se o acompanhamento inicial dos Mestres fosse outro. Se o Mateus tivesse sido mais acompanhado enquanto aprendiz, poderia ter passado a companheiro com as paixões mais controladas. Ou talvez toda esta história faça parte do destino que o G∴A∴D∴U∴ queria designar ao nosso Q∴I∴ Mateus. A resposta a esta dúvida só o G∴A∴D∴U∴ poderá dar.
Disse V∴M∴
D∴ G∴ M∴ M∴
Nota: esta prancha foi realizada com recurso à inteligência natural do autor.


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