Entrevista dada pelo Vice Grão-mestre

Entrevista dada pelo vice grão mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP – Júlio Meirinhos ao jornal A Voz do Nordeste – Bragança, em 11 de Março de 2010

“(…) o único maçom do distrito que entendo dever identificar sou eu próprio.”

Júlio Meirinhos é Vice-Grão Mestre da Grande Loja legal de Portugal. O Maçom assegura que não “existe secretismo” em torno da maçonaria apenas discrição “nas reuniões privadas” que realizam. Sem revelar quem são os seus pares, Meirinhos disse que há maçons em cargos de governação, como “há maçons com diversas profissões”, definindo-os como “homens livres, de bons costumes, que trabalham pelo aperfeiçoamento individual”.

Apesar da maior abertura que se tem sentido ultimamente por parte das Lojas Maçónicas, a verdade é que a organização ainda existe envolta num secretismo que leva, muitas vezes, a que se façam interpretações negativas da vossa actividade. O que é uma loja maçónica?

est_gllp-glrpPermita-me que, antes de responder à pergunta concreta, rebata a afirmação introdutória. A Maçonaria Regular, existente em todo o mundo, civilizado, não se resguarda em qualquer secretismo. Pelo contrário insere-se na comunidade cumprindo as regras legais e os costumes sociais. Insere-se também, sem complexos, na Sociedade de Informação do século XXI. Qualquer interessado pode saber o essencial da Grande Loja Legal de Portugal /GLRP através do livre acesso ao seu sítio na Internet (www.gllp.pt).

Uma das mais antigas Lojas da GLLP/GLRP, a Loja Mestre Affonso Domingues, mantém um sítio na Internet com centenas de artigos doutrinários, de informação e de divulgação (www.rlmad.net). Até na blogosfera maçons da GLLP/GLRP estão presentes, como é, por exemplo, o caso do blogue A Partir Pedra, com mais de um milhar de textos. Se isto é estar envolto em secretismo, não sei o que será abertura…

Respondendo agora à sua pergunta concreta, uma Loja maçónica é um conjunto de pessoas que se reúnem com o propósito de se auto aperfeiçoar ética, moral, espiritual e socialmente.

Quantas pessoas integram a Grande Loja Legal de Portugal?

Presentemente, um pouco mais de 1300.

O que é necessário para integrar a organização?

Ser homem livre e de bons costumes, desejar efectuar um esforço e um trabalho de auto aperfeiçoamento e serem reconhecidos essas condições e esse propósito por uma Loja maçónica que o acolha e integre.

Como funciona a organização em termos de hierarquia?

A Maçonaria Regular pode definir-se como homens livres em Lojas livres. Os elementos de cada Loja elegem um deles para a dirigir, por um período limitado, em regra um ano. Esse é o Venerável Mestre, que escolhe aqueles que o auxiliarão na direcção da Loja durante o seu mandato. Cada Loja trabalha com inteira autonomia e independência. Os elementos de todas as Lojas elegem um de entre eles, também por um período limitado, de 2 anos, para exercer as funções de Grão-Mestre. Este escolhe aqueles que o auxiliarão durante o seu mandato e exerce funções de direcção, coordenação e representação de todo o universo que o elegeu. Para além disso, cada Loja elege também um Tesoureiro, para cuidar do património da Loja e todos os elementos de todas as Lojas elegem um responsável pela aplicação da justiça interna e regulação de eventuais conflitos, designado por Grande Porta-Gládio (o que porta a espada da justiça). É uma estrutura muito mais simples) que se supõe…

Nos encontros, que julgo acontecerem com grande regularidade, o que se discute?

Discutem-se os assuntos internos de administração de da Loja, apresentam-se e discutem-se trabalhos (que designamos por “pranchas”) elaborados pelos elementos da Lojas sobre temas relevantes para o trabalho de aperfeiçoamento individual a que já aludi, programam-se as acções de solidariedade a que cada da Loja se dedique.

Porquê o secretismo em torno dos vossos encontros?

Não há nenhum secretismo. Apenas encontros privados. Quando se reúne com os seus amigos, essa reunião é aberta a qualquer estranho? É anunciada nos jornais? Não, pois não? A reunião da direcção de qualquer associação é restrita aos que a compõem, certo? O que há então de anormal em os maçons usarem da mesma privacidade que qualquer pessoa ou grupo reclama para si?

De que forma é que a vossa Loja intervém na sociedade Portuguesa?

A Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, enquanto tal, não tem qualquer intervenção na sociedade portuguesa, para além do seu trabalho de melhoria dos seus elementos. É pela melhoria dos homens que a sociedade, a pouco e pouco, melhorará. Qualquer intervenção na sociedade portuguesa, mereceria o acordo de uns quantos dos maçons, mas também o desacordo de outros. A forma de respeitar o livre pensamento de todos é não ter intervenção enquanto organização, reconhecendo aos maçons, individualmente, o direito de cada um intervir como entender, quando entender, conforme as suas convicções, o seu juízo, a sua vontade.

Recentemente foram recebidos pelo Presidente da República, o que procura a Loja com estas audições?

Apresentar os cumprimentos que são devidos ao primeiro representante da Nação e manifestar-lhe a nossa postura.

Os dois vice Grão Mestres são transmontanos, a Loja tem grande implementação no interior do país?

Esta é uma região de boa gente, forte de carácter, honesta, enfim, gente livre e de bons costumes. Não é, pois, de admirar que um significativo número desses homens tenha decidido utilizar o método maçónico de aperfeiçoamento individual. A GLLP/GLRP tem muita honra e satisfação na sua significativa implantação nesta região e, de uma forma geral, no interior do Pais, Para nós, Portugal não são apenas as zonas muito povoadas do litoral Estamos onde há boa gente e há gente muito boa no interior do País.

Em que local reúnem quando se encontram no distrito de Bragança?

Nas sedes das respectivas Lojas.

Quem são os maçons “mais destacados” no distrito de Bragança?

Um princípio fundamental da Maçonaria Regular é o respeito pela individualidade e pelo juízo e entendimento de cada um. Assim, entendemos que cada maçom decide, por si próprio, segundo o seu entendimento e as suas circunstâncias, se, quando e a quem divulga essa sua qualidade. Por isso, é regra inderrogável de todos os maçons que não identificam perante terceiros outros maçons, a não ser em relação aos que anteriormente se tenham declarado publicamente como tal. Não proceder assim, seria sobrepor o meu juízo, o meu entendimento, ao dos demais – e assim desrespeitá-los. Por consequência, o único maçom do distrito de Bragança que entendo dever identificar, sou eu próprio.

Porquê que são chamados dos “homens do Avental”?

Como é sabido, os maçons reúnem-se em Loja cada um trajando um avental. É uma reminiscência da época em que os maçons operativos, os construtores em pedra de catedrais, palácios e fortificações, trabalhavam, usando tal peça para protegerem a sua roupa da sujidade e dos acidentes próprios da profissão. O uso de avental pelos maçons de hoje, em todo o mundo, é o prosseguir dessa tradição e uma homenagem aos nossos antecessores de antigamente.

Que símbolos estão associados à vossa Loja?

Grande parte do método maçónico de aperfeiçoamento parte da utilização e estudo de símbolos e do seu significado. É uma excelente forma de reflectir e arrumar ideias e conceitos. São conhecidos publicamente vários símbolos maçónicos. Os mais conhecidos de todos são, sem dúvida, o esquadro e o compasso. Aquele simboliza a rectidão nas acções que é exigível ao homem de bem e simboliza também a matéria; este, que serve para traçar circunferências que delimitam círculos, simboliza os limites que devermos impor aos nossos desejos e, portanto, a moderação, e simboliza também o espírito.

Que ritos estão associados à vossa acção?

Cada Loja pratica um ritual. O mais espalhado em Portugal é o ritual do Rito Escocês Antigo e Aceite. É um guia da forma de abertura, condução e encerramento dos trabalhos. Dizem-se e fazem-se as coisas numa reu¬nião segundo uma ordem e por uma forma determinadas. Nada mais e nada de especial.

Que indumentárias usam nos vossos rituais?

Em Portugal, os maçons reúnem-se usando fato escuro, camisa branca, gravata ou laço preto, luvas brancas e avental.

Face à actual conjuntura económica do país, que perspectivas têm em relação ao futuro?

As nossas perspectivas nada têm a ver com a conjuntura económica. São as mesmas de há trezentos anos e seguramente que continuarão actuais daqui por trezentos anos: cada um trabalhará na sua melhoria, de forma que se faça, sempre e incessantemente, de homens bons, homens melhores.

Há muitos maçons em cargos de governação no país?

Há, naturalmente, alguns, tal como há governantes não maçons e governantes com diversas profissões, diferentes convicções religiosas ou diversas afinidades clubistas. Se considerarmos que os maçons procuram agir dentro dos mais exigentes padrões de ética e de responsabilidade, provavelmente seria bom para o País que houvesse mais maçons exercendo funções em prol do bem comum. Mas essa é questão que não respeita à GLLP/GLRP e com que a GLLP/GLRP não se preocupa. O princípio é sempre o mesmo: a GLLP/GLRP não intervém na Sociedade nem na coisa pública. Cada maçom, individualmente, tem a intervenção e a actividade que entender, puder e souber ter.

Qual a posição da vossa Loja em relação à religião e à Igreja?

A Maçonaria Regular só admite crentes no Criador e na vida para além desta vida. Mas reconhece a cada homem o direito de praticar a religião que entender, de conceber e denominar o Criador como entender. As igrejas (a Igreja Católica e as outras) são estruturas de enquadramento da prática religiosa, segundo os princípios prosseguidos por cada uma. Os maçons regulares reconhecem que a intermediação entre o Homem e o Criador, para quem assim o entende, se faz através da religião. Nesse sentido, a Maçonaria Regular preocupa-se apenas com o aperfeiçoamento do homem e não se imiscui na relação entre este e o Divino. Respeitamos todas as crenças religiosas e todas as igrejas e, naturalmente, reconhecemos a especial importância da religião e da Igreja Católica na nossa sociedade. Procuramos manter um saudável e mutuamente respeitoso relacionamento com todas as Igrejas e também com a Igreja Católica. Estamos muito satisfeitos com os contactos de mútua compreensão que recentemente temos tido a este nível e estamos disponíveis para cooperar, designadamente em projectos e acções de solidariedade social.

Em que causas está envolvida a vossa Loja actualmente?

Cada Loja da GLLP/ GLRP define as causas a que dá apoio. Desde o apoio a associações de solidariedade, actuando em diversas áreas, à promoção de doação de sangue ou de medula óssea, cada Loja actua ajudando onde e como entende e pode.

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