Meus Amigos, de vez em quando salta-me “uma de literário”, tipo “vaip” que me dá de repente, o que nos últimos tempos nem é de espantar atendendo às companhias com que ando.
Neste fim de semana deu-me para Vos trazer 2 estorinhas que Vos vou contar e que, como quase todas as estorinhas, começam com: – Era uma vez…
É à glória do GADU e ao prazer que me dá conversar convosco que vos trago 2 “estorinhas” que têm tanto de corriqueiras como de atuais, no preciso momento que Portugal está vivendo. Direi que saíram no “jornal do desassossego…” do qual sou diretor, editor, jornalista e proprietário… É nele que despejo as notícias dos meus sonhos !
1ª estorinha
Era uma vez um homem que sofria do coração. Terrivelmente… Palpitações, aceleração cardíaca ou, pelo contrário, outras vezes grande lentidão de batimento. Análises feitas, exames cuidadosos, TAC’s, mais análises, ressonâncias, mais análises… experiências sobre experiências. Vieram especialistas daqui e de acolá, o paciente foi aqui e acolá, até que as equipas médicas ditaram o diagnóstico. A solução é o transplante.
Aquela “máquina” não está em estado de recuperar com segurança. Só por substituição.
Havia que preparar toda a operação, a que envolvia o paciente, ele mesmo, mas ainda antes disso toda a preparação necessária para encontrar um coração suficientemente credível, em idade e em saúde, que ficasse disponível para a substituição. Análises de compatibilidade, mais do que muitas, avisos de alerta para a necessidade, todos os acidentados por esse mundo afora foram analisados na expectativa de se encontrar um coração capaz de substituir o coração doente.
E de repente, não mais que “de repente” (diria o poeta), eis que apareceu a boa nova, foi encontrado um coração disponível em condições perfeitas. Até essa altura tinham sido consumidos mais de 300 mil euros nas pesquizas. A dificuldade estava então na conservação, acomodação e transporte do órgão até ao hospital onde o doente permanecia à espera. Contas feitas foram mais 200 mil euros para esta fase da manutenção e transporte do coração, sempre acompanhado por um especialista de nome e uma enfermeira experiente, avião alugado especialmente para o efeito, batedores da GNR em terra e tudo o mais para garantia do êxito da operação.
Tudo preparado, equipa médica a postos, anestesistas, enfermeiros, especialistas de todas as especialidades, foram buscar o doente à sala onde se encontrava resguardado.
Tinha morrido.
O hospital não teve 49 cêntimos para uma garrafa de água oxigenada indispensável para a desinfeção de uma ferida que lhe surgiu num pé, fruto de uma ida à casa de banho mesmo na véspera da operação.
FIM.
2ª estorinha
Era uma vez o Alberto. Homem de iniciativa. Toda a vida que viveu até aos 55, comemorados há 2 meses, tinham sido de trabalho. Duro, muito, mas proveitoso. Sempre metido no trânsito, em reuniões, noites de computador e de laboratório. Pensa, faz, oferece, vende, aplica, põe a funcionar. A chamada “realização profissional” no seu pleno.
O Alberto fazia o que gostava de fazer, e quando é assim o trabalho, muito e duro que seja, leva-se com facilidade. O que não significa que não canse e que às tantas, anos passados sem fins de semana e muitas vezes sem feriados e sem festas, o Alberto não se sentisse farto. Farto do trabalho, farto do computador, farto das reuniões, e dos projetos, e dos clientes, e daquela parafernália toda com que era obrigado a lidar diariamente.
E que fez o Alberto, homem de iniciativa e sempre de ideias “pra-frentex”?
Mandou o trabalho às malvas, mandou os sócios às urtigas e os clientes a um sítio que o Alberto esqueceu de indicar no diário que escreveu. Mudar de vida foi a decisão. Vamos para fora, anunciou à família. Vamos para longe do ruído, do fumo, do ar condicionado, do trânsito… de tudo o que lhe tinha enchido a cabeça durante anos. E foram! Serra da Estrela, não era perto, lugar magnífico, ar cheirando a limpo era coisa que nem sabia que existia, ribeirinho ao pé… vamos nessa, um viveiro de trutas. O Pai até era da zona, amigo do presidente da junta e compadre do presidente da câmara, foi fácil arranjar o espaço para o viveiro, tal como foi fácil arranjar o espaço para um restaurante a partir de uma casa de cantoneiros, antiga, abandonada, onde a grande especialidade iria ser, naturalmente, as trutas do seu viveiro. No estudo que fez sobre como criar e tratar trutas passou por França e as “Truites au Bleu” ficaram-lhe no goto e na memória. Decisão de Especialidade da casa, restaurante a funcionar. Localização paradisíaca. Acesso por caminho antigo, arranjado para manter o rústico, saibro por cima, a 500 metros do alcatrão da estrada nacional. Parque de estacionamento sem qualquer dificuldade. Gastou o pecúlio que tinha acumulado em anos de trabalho. Começou a ser conhecido. Primeiro aos fins de semana o pessoal da Covilhã, de Manteigas e de Seia, tudo perto, tinham de fazer espera à porta. Depois até durante a semana. O êxito estava à vista. O Alberto e a Mulher, mais um Filho jovem e com o “sangue na guelra”, faziam tudo. Cozinhavam, atendiam, punham as mesas, lavavam, limpavam, arrumavam, tratavam do viveiro. Um sorriso permanente. A coisa corria. Não conseguiam grandes lucros, mas haja Deus, o reconhecimento das autoridades, os prémios que iam recebendo, da Câmara, da Junta, do Turismo. Começaram até a ser visitados pelas televisões e pelos jornais, primeiro os locais, logo a seguir os nacionais.
As revistas do jet 7, os especialistas em gastronomia, todos lá foram e todos disseram que havia ali um milagre, pela iniciativa, pela novidade, pela organização montada, pelo que significava de desenvolvimento para a região. Lá por fora já se falava no Alberto.
Um Inverno articularmente rigoroso, muita chuva, meses de frio que a lareira mal disfarçava e que o caminho, rústico, lindo até então, não aguentou. Abriu buracos, o saibro foi ribeiro abaixo com chuva dias a fio e no aperto do frio da neve que caiu e acabou fazendo gelo. Foram meses para esquecer. Nem os fins de semana salvaram os gastos.
Na Primavera, como sempre, regularmente e conforme a Mãe Natureza manda, o Sol regressou, o Céu limpou. A neve que havia caído desapareceu. Lá estavam os 500 metros desde o alcatrão até ao Alberto, praticamente intransponíveis. Mais um fim de semana em que os clientes apareceram a conta gotas. Meia dúzia deles, nem mais que 7, ainda há 1 ano eram centenas à espera, na sala de entrada, no parque de estacionamento, nos caminhos à volta gozando as vistas e o ar. Mas aqueles 500 metros, agora, eram o inferno.
Como sempre o Alberto saiu da cozinha e veio cumprimentar os clientes, poucos, dizer uma graça, agradecer a preferência, distribuir um carinho que todos recebiam com agrado. A queixa começou a ser constante acerca da aventura que representava o percurso, outrora bem simpático, dos 500 metros do acesso ao restaurante.
Surpresa magnífica. Naquele Domingo quando o Alberto se aproximou da mesa 3…
-Armando… mas és mesmo tu…
Grande e demorado abraço. Mais do que um abraço, foi xi-coração dos antigos. -Estás na mesma, há quantos anos… conta, como apareceste aqui ? -Ouvi falar no Alberto das trutas, não sabia que eras tu, que boa surpresa, amigos há 20 anos e aqui nos encontramos tão por acaso, o mundo é mesmo pequeno, vê lá tu… já tenho netos…então e tu, pelo que vejo estás na maior, começas a ser conhecido por toda a parte, isto que tu aqui fizeste é um milagre, aqui no “fim deste mundo” da serra, sabes, tens é que arranjar o caminho, assim como está é uma chatice ! mas olha gostei de te ver, vais conseguir aqui uma fortuna… isto é um achado extraordinário… um milagre… é o que te digo.
Vai outro abraço.
-Se precisares de alguma coisa diz, como sabes dou-me muito bem com o 1º Ministro e com o presidente da Fundação Gastronómica Nacional que é o braço direito da Câmara de Turismo Americano e trato por tu o presidente, almoço todas as semanas com ele, diz-me o que precisas.
-Bom, pelo que vês eu só preciso de arranjar aqui o caminho até à estrada, o resto a gente desenrasca, mas o caminho precisa de umas pazadas de saibro e a coisa está mal… o Inverno levou-me o pouco que começava a chegar e não consigo que a junta ou a câmara me dê uma ajuda, sabes, não tenho o cartão…
-Alberto, conta comigo, só que não me parece que tu saibas o que queres, para valorizar mesmo as tuas magníficas trutas só vale a pena pensar numa autoestrada, e isso é canja, eu trato-te disso de caras, ou não fossemos amigos há 20 anos.
-Óh Armando, não…, espera, não é preciso tanto, qualquer carrada de saibro resolve-me o problema.
-Nem penses, uma autoestrada, 4 faixas para cada lado, já viste como fica o teu restaurante, grande néon a anunciar “ALBERTO”… é pá, tu és famoso, caraças… uma autoestrada digo-te eu, eu trato-te disso, é a minha especialidade, não custa nada e é para um amigão de tantos anos, espera e verás.
Passado um ano há uma autoestrada construída. Foi a câmara que construiu em parceria com a “C&J SA”. No final daqueles extraordinários 500 metros de autoestrada há um grande restaurante. Indicadores por toda a Serra (fez parte do contrato) com setas a indicar o local. Um Néon enorme anunciando “Armando o Rei das Trutas”.
O Alberto foi à Câmara saber o que se tinha passado. Recebido pelo presidente.
-Amigo Alberto, sempre a considerá-lo, então diga lá em que posso ajudá-lo, bem sabe que o seu Pai ainda é meu compadre, esteja à vontade, áh a autoestrada nova, pois, teve que ser construída do outro lado da serra, sabe como é, isto não é como nós queremos, o maldito PDM obrigou a ser assim, mas deixe lá que havemos de lhe arranjar uma solução… pois claro fomos eleitos pelo povo e não nos esquecemos disso, e o Alberto… o que fez cá pela terrinha ninguém esquece, olhe que irei nomeá-lo para uma medalha, não, este ano não que já está tudo decidido, mas para o ano não me esquecerei… pode ter a certeza, pois adeus, volte sempre, terei sempre muito gosto em lhe ser útil, pois claro, não me esqueço que o seu Pai ainda é meu compadre… Áh o Dr.Armando…, pois… sabe, é que ele é muito amigo do Sr Ministro, até se tratam por tu e tudo… tem sido uma vantagem muito grande cá para a terra…
O Armando, depois da inauguração do Restaurante novo onde esteve acompanhado pelo presidente da Comissão Europeia que lhe deu a honra subida de estar presente, nunca mais voltou ao sítio.
O presidente da junta está na Assembleia da República e é presidente da Comissão dos Encargos Europeus.
O presidente da câmara está em Bruxelas e foi a deputado europeu.
O restaurante do Alberto fechou e está em ruínas.
As trutas morreram. Agora são importadas de França.
FIM
J: Paiva Setúbal M∴M∴


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