Valores Maçónicos (II)

O segundo tema dos Antigos Deveres respeita ao relacionamento que o maçom deve ter com o Poder Político e respectivas autoridades.

Eis o seu teor:

Um Maçon é sempre um súbdito pacífico, respeitador do poder civil, em qualquer lugar que resida ou trabalhe. Jamais está implicado em conspirações ou conluios contra a paz e a felicidade da nação, nem se há-de rebelar contra a autoridade, porque a guerra, os derramamentos de sangue e as perturbações, têm sido sempre funestas à Maçonaria. Assim, os antigos Reis e Príncipes sempre estiveram dispostos a proteger os membros da corporação posto que sua tranquilidade e fidelidade, que refutavam praticamente as calúnias de seus adversários, realçavam a Honra da Fraternidade, que sempre prosperou em tempos de paz. De modo que, se um Irmão se rebelasse contra o Estado, não deveria ser sustentado em seus atos. Todavia, poderia ser confortado, como um infeliz, e se não for reconhecido culpado de nenhum outro crime, embora a fiel Confraria deva desaprovar sua rebelião para não dar ao governo motivo de descontentamento e para evitar que alimente suspeitas, não se pode excluí-lo da Loja, suas relações com ela permanecendo invioláveis.

Deste texto retira-se que o maçom deve seguir o Valor do Respeito da Legalidade, que implica a recusa de atividade revolucionária ou o uso de violência para alteração de regime político. É, no fundo, o princípio essencial da Democracia. A sociedade organiza-se segundo normas que devem ser respeitadas. A alteração dessas normas deve efetuar-se pelas formas previstas na legalidade vigente. A mudança de responsáveis políticos deve ocorrer no respeito da legalidade e sempre por via pacífica e democrática.

Também aqui estão presentes os Valores da Fraternidade, da Tolerância e, bem vistas as coisas, da Igualdade e da Liberdade.

Mesmo perante o erro, que deve ser desaprovado, deve permanecer a inviolabilidade dos laços entre maçons.

A Fraternidade não implica auxílio na infração ou injusta vantagem concedida a quem quer que seja. Mas implica, perante a desgraça. o auxílio, perante o erro, o auxílio na sua superação.

Pressuposto da Fraternidade é a Tolerância (que não se confunde com permissividade), a aceitação de que o outro tem o direito de pensar e agir de forma diferente da minha maneira de pensar e de agir, sem, por isso, perder a meu respeito e a minha consideração pela sua individualidade. Posso e devo discordar de pensamentos com que não me identifico – mas não posso deixar de respeitar o direito do outro de pensar diferentemente de mim. Posso e devo verberar e condenar a ação errada, mas não devo ostracizar quem errou, antes cumpre-me auxiliar a que quem errou se corrija. Devo reconhecer que, tal como o outro erra no seu pensamento ou na sua ação, também eu estou sujeito a errar no meu pensamento e na minha ação. Devo, portanto, tolerar sem rebuço entendimento diverso do meu que considero errado, até porque, no limite, só a realidade e o futuro demonstrarão se o pensamento errado era o do outro ou o meu…

Subjacente à Fraternidade e à Tolerância está a Igualdade. Todos somos iguais na essência, embora todos sejamos diferentes, porque cada um de nós é único. Cumpre-nos, assim, reconhecer a Igualdade essencial do outro, imanente na sua diferença pessoal. Mais. só porque somos todos essencialmente iguais é que nos logramos realizar individualmente nas nossas diferentes especificidades. Daí , dessa Igualdade essencial, inevitavelmente que resulta a nossa necessidade de Tolerância das diferenças imanentes às diversas individualidades e a Fraternidade que nos deve unir aos nossos essencialmente iguais que, afinal, são todos os demais.

Tudo isto, em última instância, deriva da Liberdade de que o Criador nos dotou. O livre arbítrio é caraterística intrínseca do Homem e só existe na medida em que exista a Liberdade para cada um se determinar.

O Criador arquitetou o Universo concedendo a estas criaturas o Livre Arbítrio, para que o exerçam em Liberdade, reconhecendo que todos estão em plano de Igualdade essencial, nas suas diferenças individuais, que devem ser, assim Toleradas, devendo todos manter um relacionamento Fraterno.

Os demais Antigos Deveres, genericamente, repetem a necessidade destes Valores havendo apenas que realçar, de novo, quanto à Conduta que devem adotar os maçons, a referência aos Valores do Respeito (Não organizareis comissões privadas nem conversações separadas sem permissão do mestre, nem falareis de coisas impertinentes nem indecorosas, nem interrompereis o mestre nem os vigilantes nem qualquer irmão que fale com o mestre; nem vos comportarei jocosamente nem apalhaçadamente enquanto a loja estiver ocupada com assuntos sérios e solenes; nem usareis de linguagem indecente sob qualquer pretexto que seja; mas antes manifestareis o respeito devido aos vossos mestre, vigilantes e companheiros e venerá-los-eis.), da Temperança (Podeis divertir-vos com alegria inocente, convivendo uns com os outros segundo as vossas possibilidades. Evitai porém todos os excessos…), da Cortesia (Deveis cumprimentar-vos uns aos outros de maneira cortês…) e da Prudência (Sereis prudentes nas vossas palavras e atitudes…).

Respeito, Temperança, Cortesia e Prudência são Valores sociais que os maçons adotam também como essenciais na sua conduta.

Em suma, os Valores maçónicos são a expressão dos Valores Sociais adotados pelos maçons, com especial grau de exigência para si próprios. A contínua e intransigente prática destes Valores conduz o maçom ao seu desejado aperfeiçoamento pessoal, moral e espiritual. Os Valores maçónicos são assim o meio, o caminho e as ferramentas para o maçom levar a cabo a sua construção de si.

Rui Bandeira
Publicado no Blog “A partir pedra”

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