Simón Bolívar, Revolucionário e Maçon

Segundo os historiadores Júlio Mancini e Américo Carnicelli, o Libertador Bolívar foi iniciado na maçonaria em 1803, na Loja “Lautaro”, que funcionava em Cádis, Espanha, onde também se iniciaram outros próceres da independência das colónias espanholas da América do Sul. Outro historiador, o Marquês de Villa Urrutia, assinala a mesma data, mas sustenta que a Loja não se chamava “Lautaro”, mas sim “Caballeros Racionales”. Ambas as Lojas existiam em Cádis em 1803. A confusão virá das visitas que Bolívar costumava fazer à Loja “Caballeros Racionales”. A Loja “Lautaro” foi fundada em 1800 por inspiração de Francisco de Miranda, que residia em Londres, fazendo planos para uma expedição libertadora da Venezuela. Dizem que sugeriu esse nome em homenagem ao caudilho araucano, que venceu o conquistador Valdívia em 1554, em Tucapel (Chile). Porém, Miranda nunca esteve na Loja “Lautaro” de Cádis, porque a sua cabeça foi posta a prémio pelos espanhóis. De Londres através de amigos que viajavam para a Península Ibérica, mandava cartas e desse modo mantinha contacto com dito centro maçónico. Mais tarde, José de San Martín, fundou em Buenos Aires, Argentina, outra Loja “Lautaro”, em lembrança da Loja de Cádis. Depois fez o mesmo em Santiago de Chile e Lima, onde as Lojas “Lautaro” foram centros de patriotas na luta pela independência.

Em 1801, quando Bolívar tinha 18 anos de idade, contraiu casamento em Madrid, com Maria Teresa del Toro, sobrinha do Marquês del Toro, seu amigo de Caracas. Depois de viajar por França e outros países, regressou à Venezuela com sua esposa para se dedicar à administração das suas ricas propriedades rurais. Mas a felicidade durou-lhe muito pouco. Após dez meses de permanência em solo venezuelano, a febre amarela acabou com a jovem existência de Maria Teresa del Toro, lançando Bolívar na desolação. Órfão e viúvo aos vinte anos, pois tinha perdido seus pai, mãe e esposa, andou vários meses percorrendo vários lugares de Venezuela, em calada tristeza, até que os seus familiares conseguiram convencê-lo a que voltasse para a Europa. Finalmente,em 1803, embarcou num barco que o levou a Cádis, Espanha. Então esse porto andaluz era a principal porta de entrada da Europa, pela sua situação vantajosa na comunicação com a América e com África. Ali residiam muitos estrangeiros e vivia-se um interessante ambiente liberal. Poucos dias depois da sua chegada a Cádis, o jovem Bolívar fez amizade com alguns intelectuais que frequentavam a Loja “Lautaro”, com os quais conversava sobre as ideias de liberdade e a necessidade de lutar contra toda forma de opressão. Atraído por esse pensamento revolucionário, decidiu ingressar na Loja “Lautaro”, onde conheceu outros latino-americanos, como José de San Martín e Mariano Moreno, que mais tarde também seriam próceres da Independência. Na Loja “Lautaro”, discutia-se sobre os princípios de “liberdade, igualdade e fraternidade”, sobre a dignidade do homem e a possibilidade de converter em Repúblicas às colónias espanholas de América. A verdade é que a Loja “Lautaro”, fez germinar na mente de Bolívar, a ideia de acabar com o domínio espanhol na Venezuela, para semear ali a semente da liberdade para o resto da América do Sul. O mesmo Bolívar diria, anos mais tarde, que, sem a morte de sua esposa, não teria realizado a sua segunda viagem a Europa e ingressado na Loja “Lautaro”, onde a maçonaria lhe mostrou novos caminhos. Comentando esse episódio na vida de Bolívar, afirmam alguns historiadores, que sem o temporão desaparecimento de Maria Teresa del Toro, o impetuoso venezuelano não teria podido ter as ideias que o impulsionaram à luta pela Independência, antes viveria placidamente em Caracas ou San Mateo. A sua entrada na maçonaria e as suas viagens fizeram-lhe ver as coisas de um modo diferente. A morte de sua esposa pô-lo muito cedo no caminho da política, fazendo-lhe seguir depois a carroça de Marte em lugar de seguir o arado de Ceres. Já iniciado na maçonaria, Bolívar viajou para Madrid, de onde saiu rumo a França em Maio de 1804, acompanhado de seu amigo Fernando Toro, também venezuelano e primo de sua defunta esposa. Jovem e rico, frequenta os salões mais elegantes e trava amizade com o sábio alemão Alexander Humboldt, outro maçon, recém chegado de uma viagem científica por terras da América do Sul. Em Paris, alternava as suas visitas aos círculos literários, mundanos e políticos, com a sua assistência às sessões de lojas maçónicas e principalmente da Loja “Mãe Escocesa de Santo Alexandre da Escócia”, onde se encontrou com o seu velho mestre e amigo Simón Rodríguez, que era maçon e inimigo da monarquia espanhola. Simón Rodríguez saiu da Venezuela em 1797, por ter participado no movimento revolucionário de José Maria Espanha e Manuel Gual. Então Simón Bolívar tinha só onze anos, mas mantinha intacta a lembrança do seu professor humanista e rebelde. O vínculo maçónico e a admiração que Bolívar sempre teve pelas ideias revolucionárias de Simón Rodríguez, selou a amizade de mestre e aluno, com um cálido abraço de fraternidade. Desde então até ao regresso de Bolívar à Venezuela, passando pelos Estados Unidos, em 1806, sempre estiveram juntos, falando de política, participando em fóruns, visitando povos e sobretudo aperfeiçoando a ideia de libertar a Venezuela.

Bolívar recebeu o grau de Companheiro, o segundo na maçonaria simbólica, numa Loja francesa em 11 de Novembro de 1805. Sobre essa cerimónia existe um documento, guardado no arquivo do Supremo Conselho do Grau 33.° para a República de Venezuela. Desde que chegou a Paris, Bolívar frequentava a Loja “Mãe Escocesa de Santo Alexandre da Escócia”, onde assistiu ao número regulamentar de sessões para se fazer credor da respectiva ascensão. Na maçonaria simbólica ninguém sobe de grau sem ter preenchido satisfatoriamente o requisito da assiduidade e o progresso nos conhecimentos próprios da Ordem. O documento da ascensão de Bolívar ao grau de Companheiro foi adquirido em Paris pelo escritor venezuelano Ramón Díaz Sánchez, que, antes de o doar ao Supremo Conselho do Grau 33.°, em Caracas, o fez examinar por peritos em paleografia e por historiadores bem informados sobre a actividade maçónica de Bolívar. O dito documento, escrito em francês, traduzido diz textualmente o seguinte: “À Glória do Grande Arquitecto do Universo, etc., Ao 11.º dia do 11.° mês do Ano da Grande Luz de 5805, os trabalhos de Companheiro foram abertos no Oriente pelo R:. I:. de la Tour d’ Auvergne. O Oeste e o Sul iluminados pelos RR:. II:. Thory e Potu. A leitura da última prancha traçada foi feita e sancionada. O Venerável propôs elevar ao Grau de Companheiro o R:. I :. Bolívar, recentemente iniciado, por causa de uma viagem que está em vésperas de empreender. O parecer dos II:. foi unânime para sua admissão e a votação favorável; o R:. I:. Bolívar foi introduzido no Templo e após as formalidades requeridas prestou ao pé do Trono o juramento de uso; colocado entre os dois Vigilantes, foi proclamado Companheiro Maçon da Resp:. Mãe Loj:. Escocesa de Santo Alexandre da Escócia. O trabalho foi coroado por uma tríplice bateria e o I:., tendo-a agradecido, tomou lugar à cabeça da Coluna do Sul. Os trabalhos foram fechados da maneira costumada. (Ass.) J. A Tour D’Auvergne, Venerável Mestre; (Ass.) Thory, Primeiro Vigilante; (Ass.) Potu, Segundo Vigilante; (Ass.) Jura De; (Ass.) P. Vidal, G:. de J:. do 33°; (Ass.) D’Auduar, 33°; (Ass.) Simón Bolívar; (Ass.) C. Abraham; (Ass.) Jeanne de la Salle”. Dias depois, com seu flamejante Grau de Companheiro, Bolívar, acompanhado do seu amigo e mestre Simón Rodríguez, empreendeu uma viagem de observação e estudo por Itália e Suiça. Em Roma, fez o seu famoso juramento do Monte Sagrado, porque tinha fixado em sua mente a ideia de lutar pela independência de Venezuela.

Em Maio de 1806, quando Bolívar já preparava sua viagem de regresso a Venezuela, foi elevado ao Grau de Mestre, na mesma Loja “Mãe Escocesa Santo Alexandre da Escócia”, juntamente com os Companheiros Manuel Campos, Antonio Bianchi, Crussaire e o conde Jean Sérurier, segundo se depreende de documentos impressos conservados na Biblioteca Nacional de Paris. Esse facto foi corroborado pelos historiadores Julio Mancini e Marquês de Villa Urrutia. Desde o seu regresso à Venezuela em fins de 1806, após visitar os Estados Unidos, Bolívar, até Agosto de 1810, não teve actividade maçónica, salvo uma visita que fez a uma Loja de Filadélfia e os contactos esporádicos que tinha com alguns membros das Sociedades Patrióticas, que, sem serem lojas maçónicas propriamente ditas, agrupavam pessoas com instrução maçónica, como Juan Germán Roscio, Vicente Saías e Juan José de Landaeta. Quando chegou a Londres, em companhia de Luis López Méndez e de Andrés Belo, teve em Francisco de Miranda um fraternal irmão maçon e cordial amigo. Em fins de Agosto, Bolívar, que visitava em seus momentos livres a loja maçónica “A Grande Reunião Americana”, fundada e dirigida por Miranda, foi confirmado no sublime Grau de Mestre, numa cerimónia especial que saía um pouco dos ritos maçónicos. No momento de sua confirmação, Miranda, como costumava fazer com todos os que recebiam essa honra, tomou a Bolívar o juramento seguinte: “Eu não reconhecerei por governantes legítimos de minha Pátria senão aos eleitos pela livre e espontânea vontade do povo; e sendo o sistema republicano o mais aceitável à Governação das Américas, empregarei todos os meios que estejam ao meu alcance para o fazer admitir a seus habitantes”. Este juramento que fez Bolívar no momento de receber sua confirmação de Mestre, é o quinto voto que exigia Miranda aos maçons que chegavam a essa cimeira do simbolismo. Esta versão, publicada pelo historiador Américo Carnicelli, foi confirmada pelo maçon e prestigiado historiador argentino Bartolomé Mitre, no seu livro sobre a organização dos ‘Caballeros Racionales”. Bolívar, permaneceu em Londres até 25 de Setembro de 1810, data em que empreendeu o regresso à Venezuela na corveta “Saphire”. Miranda fá-lo-ia depois, a 10 de Outubro, no navio “Avon”.

Nos últimos anos, apareceram provas da alta hierarquia maçónica do Libertador Bolívar, o qual não se limitou ao Grau de Mestre, antes chegou ao cume do escocismo, que é o Grau 33.°. O Libertador Bolívar, em 1923, tinha conseguido indiscutível prestígio continental. O seu nome ocupava com frequência a primeira página dos diários mais credenciados dos Estados Unidos, Inglaterra e França. No Museu Maçónico de New York, em conjunto com muitas relíquias maçónicas dos heróis da Independência das Américas, exibem-se o avental e o colar do Libertador Bolívar, com os ornamentos próprios do Grau 32.°. Mas o historiador maçónico venezuelano Celestino B. Romero chegou mais longe. Após uma exaustiva investigação, conseguiu reunir suficientes provas para informar num livro que ao Libertador Bolívar foi outorgado o Grau 33.° e último do Rito Escocês Antigo e Aceite. Celestino B. Romero foi Grão Mestre da Grande Loja da República de Venezuela e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33° para a República de Venezuela. Estudioso e dedicado à investigação da história maçónica, tinha acesso aos arquivos da Ordem onde se guardam velhos e desconhecidos papéis, alguns com antiguidade de mais de 170 anos. Numa de suas visitas ao vetusto arquivo, fez um sensacional achado. Encontrou um amarelecido documento, que revela que no ano 1823, chegou a Caracas o R:. I:. José Cerneau, alto dignatário do Supremo Conselho dos Estados Unidos, com a missão expressa de conferir as máximas honras aos maçons que se distinguiram na luta pela liberdade da Grande Colômbia. O R:. I:. José Cerneau, investido de amplos poderes, em nome do Soberano Grande Consistório de Chefes da Alta Maçonaria dos Estados Unidos, segundo consta no Boletim do Arquivo Nacional, em seu número 2, no mês de Abril de 1824, elevou ao Grau 33.° Diego Bautista Urbaneja, Carlos Soublette, Andrés Narvarte, Lino de Clemente, Manuel M. Quintero, José de Espanha, Vicente do Castelo, J. Porfirio Iribarren, José Marra Pelgrón, José Manuel Landa, Francisco Vicente Parejo, José Gabriel Lugo, José Manuel Morais, Santiago Mariño, Tomás José Sanabria, Marcelino da Praça, Felipe Estévez, José Remigio Martín, Ramón Landa, José Marra Lovera, Gerónimo Pompa, José Manuel Rivero, Manuel Cala, Juan José Cande, Francisco Carabaño, Judas Tadeo Piñango, Juan Bautista Monserrate, José Marra Ponce, Joaquín Tellechea, Manuel Vicente Huizi, Juan Maimó, José Santiago Rodríguez, Simón Bolívar, Rafael Lugo, Francisco Conde, José Manuel Olivares, José Cordeiro, Carlos Cornejo, José Marra de Vermelhas, Antonio Febres Cordeiro, José Marra do Castelo, Andrés Caballero, Juan M. Barry, George Woudwery, Leonardo Jiménez, José Tadeo Monagas, Diego Vallenilla, Manuel Maneiro, José Francisco Bermúdez, José Antonio Páez, Juan Bautista Arismendi, Manuel López de Umérez, Francisco Aranda, José Áustria, Leonardo de Lorenzy, Matras Padrón, Rafael Guevara, Manuel Echeandía, Juan Escalona, Valentín Osío, José Manuel Gonell, Santos Michelena, José de Lima, Pedro Gual, Carlos Padrón, José Grau, Miguel Vargas, Esteban Escobar, Manuel Muñoz, Rafael Urdaneta, Ramón Machado, Agustín Armario, Tomás Yánez, Andrés Torrellas, Pablo de Michelli, Fernando Peñalver, Pedro Briceño Méndez, Rafael Formoso, Juan Bautista Dalla Costa, José Freyres e José Blanco (Presbítero). De acordo com esta lista, publicada em Abril de 1824 no Boletim do Arquivo Nacional e corroborada pelas investigações que levou a cabo o R:. I:. Celestino B. Romero, é indubitável que o Libertador Bolívar obteve o Grau 33.°.

Simón Bolívar, Libertador da América do Sul, Revolucionário e Maçon passou ao Oriente Eterno em 17 de Dezembro de 1830, na Quinta San Pedro Alejandrino, em Santa Marta, Colômbia, onde era assistido pelo médico francês Prosper Reverend. Por uma ironia do destino, a casa onde faleceu o Libertador era do espanhol Joaquín de Mier. Os restos mortais do Libertador Simón Bolívar, foram repatriados em 1842, e trasladados para o Panteão Nacional da Venezuela em 28 de Outubro de 1877, durante a governação do maçon Antonio Guzmán Blanco.

Este texto foi adaptado e traduzido daqui.

Rui Bandeira
Publicado no Blog “A partir pedra” em 08 março 2007

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