A Maçonaria: tecnologia avançada (V)

the_orreryNa Inglaterra de meados do século XVII o poder do Rei e da Igreja começavam a ser postos em causa por toda uma classe média emergente, o que levou à guerra civil que devassou a Inglaterra entre 1642 e 1649 e à execução de Carlos I, o que deixou a Inglaterra sem rei. Sob um governo republicano liderado por Oliver Cromwell, a Inglaterra foi governada a ferro e fogo no período de pós-guerra (de 1649 a 1660), depois do que o Parlamento restaurou a Monarquia, tendo Carlos II – filho de Carlos I – sido coroado a 1661, com a idade de 30 anos. Um ano depois casaria com Catarina de Bragança. Carlos II, favorável à causa da liberdade religiosa e patrono das artes e da ciência, ficou conhecido como o Merrie Monarch, o Rei Alegre, quer pela sua boa disposição e pelo hedonismo da sua corte, como pelo alívio pelo retorno à normalidade após o governo de Cromwell.

Enquanto as autoridades política e religiosa em Inglaterra se encontravam diminuídas e fragilizadas – e eram agora mais fonte de desavença do que de união – surgia no Mundo um novo paradigma entre os meios intelectuais da época: o do primado da razão como fonte de legitimidade e de autoridade, num movimento que veio a ficar conhecido como Iluminismo. Este é, historicamente, coincidente com o século XVIII, mas as suas raízes podem ser encontradas algumas décadas antes.

Encontramos, logo após a guerra civil inglesa, a sociedade londrina efervescente de associações e clubes onde os cavalheiros podiam socializar uns com os outros; as temáticas decorriam dos novos interesses da época. Assistia-se, ao mesmo tempo, ao declínio das irmandades (associações de homens, normalmente profissionais do mesmo ramo, com fins de assistência mútua na doença ou na morte), que existiam desde o século XI; para congregar as pessoas já não bastava a ideia de assistência mútua. Foi neste contexto que, em 1660, com o propósito de juntar vários tipos de homens no estudo da Ciência, foi fundada a Royal Society. Robert Moray – um alto oficial do exército e também defensor da tolerância religiosa – conseguiu o apoio da família real para a sua fundação. A Royal Society, de que Moray viria a ser o primeiro presidente, tinha uma característica curiosa: não se iniciava aí discussões sobre política ou religião; falava-se de Ciência. Esta sociedade obteve considerável sucesso, graças ao qual a revolução científica atingiu a Europa através da obra de Isaac Newton, que propunha a visão de um mundo que obedecia a regras passíveis de ser formuladas e entendidas pela mente humana.

Ora, Robert Moray fora iniciado maçon na Mary’s Chapel Lodge, e não foi o único “gentleman mason” iniciado numa loja escocesa. Havia muitos outros que, juntando-se em Lojas em Londres ou constituindo clubes, trariam para esta cidade esta visão, esta forma de estar na vida. Sabemos hoje que muitos dos membros da Royal Society se interessavam pelos clubes maçónicos que acabavam de surgir, pois encontravam neles uma mistura dos princípios científicos e racionais que acarinhavam com os princípios morais a que aspiravam, de mais a mais embelezados por uma rica teia de ensinamentos místicos, o que a tornava muito atrativa.

A Maçonaria tornou-se, deste modo, na principal “corrente” – se assim se lhe pode chamar – de clubes de cavalheiros. É verdade que, à semelhança dos outros clubes que surgiam, as lojas constituíam um ambiente onde homens de diferentes convicções religiosas e políticas podiam encontrar-se e confraternizar amigavelmente; contudo, o que a Maçonaria tinha que as outras sociedades não tinham era um propósito mais sério, por assim dizer: tornar os seus membros em pessoas melhores, ensiná-los a ser cidadãos dos seus países, e incentivá-los a cultivar-se intelectualmente.

Através dos primeiros gentlemen masons, oriundos da clique intelectual da época, a Maçonaria abraçara os valores de um Iluminismo que dava os primeiros passos, cunho que se manteria até aos dias de hoje. Os gentlemen masons tinham conseguido propagar um novo paradigma de autoridade, um novo conjunto de princípios, um novo edifício ético. Tomaram os ideais do Iluminismo e um conjunto de princípios morais transversais às várias denominações religiosas da época, enformaram-nos num clube de cavalheiros com tradições seculares, e tornaram-nos apelativos ao cidadão vulgar. Finalmente, após as guerras religiosas e civis, após os ódios fratricidas, a Inglaterra dispunha de um movimento unificador que, em torno de uma espiritualidade não sectária, para além dos partidos e das religiões, juntasse homens que de outro modo se manteriam para sempre afastados.

De 24 de Junho de 1717 – data da fundação, em Londres, da primeira Grande Loja do mundo por quatro Lojas Maçónicas – a 1723 formaram-se, só em Londres, já mais de 30 Lojas Maçónicas, número que explodiu nos anos que se seguiram, com gente de todas as classes a juntar-se à Maçonaria. Os segredos e os conhecimentos tecnológicos dos antigos pedreiros estavam agora ao alcance de todos. As lições morais e a postura perante a própria existência retiradas dos antigos símbolos, associados aos princípios do Iluminismo, viriam a mudar primeiro a sociedade Inglesa, e depois o resto do mundo.

Referências:

  • http://libcom.org/library/trade-guilds-initiation-through-work-andre-nataf
  • http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_II_of_England
  • http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Moray
  • http://en.wikipedia.org/wiki/English_Civil_War

In Blog “A Partir Pedra” – Texto de Paulo M. (16.08.2010)

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