O outro Afonso Domingues

O patrono da Loja Mestre Affonso Domingues foi um dos arquitetos do Mosteiro da Batalha, imortalizado no conto de Alexandre Herculano A abóbada. O JPSetúbal publicou neste blogue um texto evocativo do patrono da Loja, com o título Sobre o nosso patrono MESTRE AFFONSO DOMINGUES.

Mas talvez o leitor não saiba que, na Maçonaria portuguesa, houve um outro Afonso Domingues. Se assim for, vai ficar a saber!

Em algumas Obediências maçónicas há o hábito da utilização de nomes simbólicos, afinal verdadeiros pseudónimos escolhidos pelos maçons para protegerem as suas identidades. A escolha do nome simbólico por um maçom traduz, muitas vezes, para além de uma homenagem, uma identificação do maçom que o escolhe com aquele cujo nome foi escolhido. Uma das Obediências em que detetamos a prática da utilização do nome simbólico é o Grande Oriente Lusitano.

Em 1908, foi iniciado na Loja Fiat Lux, de Lisboa e do GOL, o arquiteto, escultor, pintor e autarca republicano Arnaldo Redondo Adães Bernudes. Escolheu o nome simbólico de Afonso Domingues, evocando assim o arquiteto da Batalha que veio a ser o patrono da nossa Loja. Para nós, Adães Bermudes é, assim, o outro Afonso Domigues…

Adães Bermudes nasceu no Porto em 1 de outubro de 1864, cidade em que se diplomou em arquitetura. Foi o autor dos projetos da Câmara Municipal de Sintra, de sedes do Banco de Portugal em Coimbra, Évora, Faro, Bragança, Vila Real e Viseu, do Instituto Superior de Agronomia, das Igrejas de Espinho e de Amorim (Póvoa de Varzim), do Pavilhão de Desportos de Lisboa e do Hotel Astória, em Coimbra, além de outros. Em conjunto com António Couto e Francisco dos Santos, foi coautor do projeto do monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa. Foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e da Sociedade dos Arquitetos Portugueses. Recebeu vários prémios nacionais e internacionais, designadamente o Prémio Valmor de 1908, com o projeto do edifício de esquina entre o Intendente e a Avenida Almirante Reis, no n.º 2 desta avenida, em Lisboa.

Foi também ele o autor da conceção de um bairro de casas económicas, que veio a ser o Bairro do Arco do Cego.

Teve um estilo de arquitetura próprio, aliando traços do revivalismo com influências do Manuelino e do Barroco e elementos decorativos contemporâneos, em versão simplificada do estilo Arte Nova.

Projetou e dirigiu diversas intervenões de conservação e restauro em monumentos nacionais, designadamente o Palácio Nacional de Sintra, o Convento de Mafra, o Palácio de Queluz, a Igreja do Mosteiro dos Jerónimos e o restauro e ampliação dos Museus Nacionais de Arte Antiga e de Belas Artes, em Lisboa.

Um traço significativo da referência biográfica que lhe é feita na Wikipédia é o de que, por ser maçom, nunca aceirou condecorações!

Passou ao Oriente Eterno em Sintra em 18 de fevereiro de 1948, aos 83 anos de idade.

Fontes:

Daniel Madeira de Castro, Livro das Efemérides – Históricas, Políticas Maçónicas e Sociais, Lisboa, 2016 (efemérides de 1 de outubro lidas em JB News, n.º 2191)

Rui Bandeira
Publicado no Blog “A partir pedra”

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