O teórico da conspiração

goofyTendo mostrado, no conjunto de textos anteriores, como uma simples e fácil busca de alguma informação desmonta uma das mais persistentes teorias da conspiração envolvendo a Maçonaria, uma última ponta sobra para desenredar este afinal tão simples novelo: como é possível que uns criem tão toscas atoardas e outros tão candidamente nelas acreditem?

É possível porque a capacidade humana de fazer o inesperado é verdadeiramente inesgotável, digo eu!

Criar tão toscas atoardas decorre, ou de simples e canhestra má fé de quem procura atingir quem não gosta e inventa parlapatices para enganar os incautos – e desses não curo, porque a desonestos não dou importância -, ou de inesperada incapacidade de ajuizar com lógica sobre factos desconexos – e a estes, bem vistas as coisas, nem sequer censuro, porque quem a mais não pode, a mais não está obrigado.

Os verdadeiros teóricos da conspiração – porque os outros, os desonestos, são apenas cáfila inconsiderada e inconsiderável, de má memória e nula honra – são pessoas com uma incapacidade atroz de analisar factos dispersos com um mínimo de lógica, relacionando o que não é relacionável, generalizando o que não é suscetível de generalização (e pouco o é!), unindo o que não tem ponta por onde se lhe pegue. Qualquer boato assume o cariz de verdade absoluta, qualquer hipótese, por muito absurda que seja, atinge foros de certeza inabalável, qualquer especulação se transforma em verdade absoluta, num desvario em que a imaginação se sobrepõe à razão, o sonho à realidade, a hipótese à verificação.

O homem de ciência formula hipóteses e testa-as experimentalmente. Se as hipóteses se confirmam, em experiências repetidas e repetíveis, passam a ser consideradas verdades científicas; se as experiências não confirmam as hipóteses, disso busca o cientista ensinamento para, à luz dos resultados obtidos, formular novas hipóteses, que submeterá de novo à prova de fogo da experimentação.

O teórico da conspiração, pelo contrário, encanta-se por uma hipótese que assola o seu espírito e toma-a por verdadeira e apregoa-a como tal, não só sem se preocupar em testá-la através da experiência, como rejeitando toda e qualquer demonstração da inveracidade da sua adorada iluminação.

O cientista quer saber. Ao teórico da conspiração apenas interessa a sua especulação, elevada por artes da sua vontade ao patamar do que ele passa a considerar verdade absoluta e inderrogável.

O teórico da conspiração tem, mais que uma incapacidade, um desinteresse inato pela verificação das suas mirabolantes hipóteses, pela busca de informação que confirme, alicerçando, ou infirme, derrubando, a sua querida efabulação.

Que ninguém venha com os seus factos perturbar os belos argumentos de um teórico da conspiração – não só não são, sequer, ouvidos esses factos, como o que ousa atalhar com a simples e chã lógica é repelido como conspirador, cujo único objetivo é impedir, subverter, dificultar, o conhecimento generalizado da “verdade” proclamada pelo teórico da conspiração. Simples factos – verificáveis – são inaptos para abalar qualquer dos brilhantes argumentos do teórico da conspiração.

Ao teórico da conspiração não importa se e vero; basta-lhe que lhe pareça bene trovato.

O teórico da conspiração efabula alegremente ao sabor da sua inspiração, de forma a denegrir quem não gosta, ao arrepio da lógica, da razoabilidade, da verdade. Relacionar factos dispersos ao sabor da sua imaginação criadora, extraindo conclusões que se não podem extrair, vendo tenebrosas ligações entre factos independentes e coincidentes apenas pela força das coisas, é a sua especialidade, amorosamente cultivada contra e acima de tudo e de todos.

O teórico da conspiração facilmente extrai uma curiosa conclusão, por exemplo, deste acervo de factos, cada um por si verdadeiro, mas não relacionáveis necessariamente:

  • A Loja Mestre Affonso Domingues trabalha no Rito Escocês Antigo e Aceite;
  • A cor do Rito Escocês Antigo e Aceite da Maçonaria é o vermelho;
  • A cor da camisola do equipamento principal do Benfica também é o vermelho;
  • Os maçons Rui Bandeira, José Ruah e JPSetúbal são obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues
  • O maçom Rui Bandeira é adepto do Benfica; o maçom José Ruah também; o maçom JPSetúbal, idem;
  • Os maçons não revelam a identidade, os nomes, dos outros maçons (que, sendo ainda vivos, não se tenham assumido publicamente como tal) – ou seja, a quem lhes pergunta, respondem: No Names, Boy!;

CONCLUSÃO (obviamente brilhante e irrefutável): a claque adepta do Benfica No Name Boys foi criada pela Loja Maçónica Mestre Affonso Domingues!!!!

Pouco importa que isto não tenha qualquer lógica, que se extraiam conclusões de factos não interrelacionáveis. Uma vez que à mente do teórico da conspiração assole esta ideia, passa, de imediato, à categoria de Verdade Irrefutável, a ser divulgada e repetida, à exaustão, contra toda e qualquer demonstração da sua irrazoabilidade!

E isto não é o pior!

O pior é que, mal um teórico da conspiração lance esta excelsa “verdade”, logo outro não menos diligente teórico da conspiração fará mais uma “extraordinária descoberta”:

  • Vários elementos da claque No Name Boys foram condenados, em 1.ª instância (no momento em que escrevo isto a sentença ainda não transitou em julgado, mas isso não interessa nada, para um teórico da conspiração que se preze…) por tráfico de drogas e posse de armas proibidas.

SEGUNDA CONCLUSÃO (não menos brilhante e obviamente não menos irrefutável):

  • Os maçons fazem tráfico de droga e possuem armas proibidas!!!

O exemplo é obviamente exagerado e disparatado (chama-se a isto, em Lógica, a Demonstração do Erro pelo Absurdo). Mas não ponho as mãos no fogo de que, um dia deste, não apareça um iluminado qualquer a clamar que os No Name Boys são todos maçons e que os maçons fazem tráfico de droga e possuem armas proibidas… invocando em abono da sua tese este texto, ao abrigo do princípio (obviamente irrefutável…) com a verdade me enganas…

Que os teóricos da conspiração, pobres espíritos que a mais não alcançam, se entretenham com alarvidades deste género, isso a mim não me preocupa. Afinal, dos simples é o Reino dos Céus… O que me admira, me faz abrir a boca de espanto, é que gente manifestamente inteligente, e culta, e capaz, aceite sem sombra ou rasto de espírito crítico, as baboseiras espremidas de tão simplórios espíritos, no fundo e afinal numa mistura de crendice acéfala com a mais pura preguiça de verificar a veracidade de factos e da sua efetiva possibilidade de relacionação.

Que um simplório qualquer tenha parido a abstrusa tese de que os maçons – vá-se lá saber porquê, para quê e com que vantagens – conseguiram, à socapa e à falsa fé do Povo, inserir símbolos seus na nota de um dólar americano, não me preocupa. O que me perturba é que, anos passados, ainda haja gente inteligente, culta e capaz que acredite nisto, sem sequer se dar ao trabalho de gastar cinco minutos (não precisa de mais…) para verificar a perfeita insanidade deste disparate!

Mas isto sou eu, que me sinto incomodado por estes maçadores dos teóricos da conspiração andarem para aí a denunciar tudo e todos e temo que ainda descubram o meu maçónico plano de agente de forças extraterrestres para dominar a Terra e entregar, de mão-beijada, a sua escravizada população ao domínio dos senhores de Sirius, que há uma mão-cheia de anos deram uns quantos segredos aos meus antepassados maçons, para com eles executarmos tão execrando plano (Uupppsss! Entusiasmei-me… Isto não era para escrever… Era segredo… Façam de conta que não leram esta última frase e continuem felizes enquanto preparamos o dia do Domínio Final…).

In Blog “A Partir Pedra” – Texto de Rui Bandeira (11.08.2010)

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