Aprender e Ensinar

Costumo dizer, com alguma frequência, e já aqui o escrevi, que a Maçonaria não se ensina, aprende-se. No texto Variação sobre o silêncio, porém, escrevi que ter a palavra é ter o poder de ENSINAR. E, nesse sentido, só os Mestres ensinam, só os mestres detêm a palavra. Atento, como habitualmente, logo o simple, em comentário a este texto, assinalou a aparente contradição. Cumpre, então, esclarecer.

A Maçonaria não se ensina, aprende-se. Com esta frase, procuro enfatizar que tudo o que é verdadeiramente importante, essencial, na Maçonaria não nos é transmitido por ninguém, é apreendido por nós próprios. O que qualquer outro, por muito sabedor que seja, nos transmita, nos ensine, em Maçonaria é sempre acessório, não verdadeiramente essencial. O que de verdadeiramente importante há na Maçonaria é aquilo que é impossível de transmitir por palavras. É aquilo que constitui o verdadeiro Segredo Maçónico. A isso, chega-se pela vivência, pelo trabalho e pelo estudo, pela meditação, pela análise, pela introspecção. Isso está dentro de cada um de nós e só nós mesmos o podemos localizar, descobrir, reconhecer e apreciar. Isso é, em suma, o sentido da existência e da Criação. Todos o temos dentro de nós e ao nosso alcance. A imensa maioria nem sequer sabe que o tem. Alguns sabem que o têm, mas não sabem como o encontrar. Una quantos dedicam-se à tarefa e ao caminho. Esses buscam o verdadeiro Graal. Esses são verdadeiros maçons. Alguns nunca usaram um avental…

A Maçonaria é um caminho que cada um tem de percorrer. Às vezes, um caminho que não nos é aparente, que, em boa verdade, somos nós próprios que o estamos criando com o nosso caminhar. Cada um tem o seu. Alguns, muitos, seguem muito do caminho em conjunto e só mais além cada um escolhe sua diferente vereda. Una vão mais além, outros ficam mais perto. Uns satisfazem-se com o que encontram a dado passo, outros persistentemente escavam mais fundo e descobrem novos caminhos debaixo do caminho original. Todos podem encontrar o que precisam. Basta que o queiram e façam por isso.

O caminho de meu Irmão pode ser diferente do meu. Portanto, de nada vale ensinar-lhe o caminho que conheço. O meu Irmão pode precisar de algo bem diverso do que eu preciso. Logo, é inútil procurar ensinar-lhe a procurar o que eu procuro. O que fará sentido para o meu Irmão pode muito bem ser diverso do que para mim tem significado e aquilo que eu reconheço como essencial descoberta pode a ele deixá-lo indiferente. Assim, é estulto procurar ensinar-lhe o meu significado.

A pintura que Leonardo da Vinci pintou, só ele a poderia exactamente pintar. tal como a de pintura de Dali só ele a poderia exactamente assim fazer. Tal como a de Rembrandt é única. Ou a de Van Gogh. Cada um dos grandes mestres da pintura percorreu o seu único e individual caminho para chegar onde chegou, criar o que criou. Não é possível (nem sequer desejável) procurar ensinar quem quer que seja a ser da Vinci, ou Dali, ou Rembrandt ou Van Gogh. O melhor que se conseguiria seria criar falsários ou imitadores… Mas todos – da Vinci, Dali, Rembrandt, Van Gogh e o mais obscuro e desconhecido candidato a pintor – usaram ou usam tintas e pincéis e telas e cavaletes e lidaram ou lidam com a luz e a sombra e a forma e a textura. Cada um lidará com eles da forma que pessoalmente souber e conseguir. Um foi da Vinci, outro não passará nunca de Rui Bandeira, tão destituído de sentido plástico que tudo o que fizesse pareceria sempre feito com a mão esquerda, não sendo canhoto…

A escrita de Eça é dele e o seu brilho tem o fulgor do reflexo o seu monóculo. Poesia como a de Camões, ninguém mais escreveu, nem daqui nem de além da Taprobana. O ascetismo de Cardoso Pires não se confunde com a sobriedade de Lobo Antunes. E esta difere do espírito de Agustina e do pessimismo controlado de Saramago. E com nenhum destes se confunde a profundidade de Torga, nem a autenticidade de Aquilino. No entanto, todos eles utilizaram a mesma língua, trabalharam as mesmas letras, se inspiraram no mesmo Povo…

A arte de cada pintor, ninguém lha ensinou, aprendeu-a ele. A criação literária de cada escritor não a obteve ele de nenhum professor, aprendeu-a ele da sua vida, da sua observação, do seu interior. No entanto, ao pintor, no seu início, houve quem lhe ensinasse a usar pincéis, a fazer tinta, a combinar texturas. E os escritores tiveram quem lhes ensinasse a ler e a escrever.

Assim sucede também em Maçonaria. Esta não se ensina, aprende-se. Mas as ferramentas, os meios, os símbolos, o enquadramento ético, esse pode e deve ser ensinado.

O B-A BÁ não passa disso mesmo. Mas sem se passar por ele, não se pode escrever um livro digno do Nobel ou pintar uma obra merecedora de ser exposta no Louvre.

Cada Mestre ensina os rudimentos, mostra as ferramentas e como se trabalha com elas. E depois cada um aprende e faz com elas o que conseguir.

Rui Bandeira

Publicado no Blog “A partir pedra” em 21 de Maio de 2008

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

EnglishFrenchGermanPortugueseSpanish