Uma História da Maçonaria Britânica (1874-1967)

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Depois de um período conturbado, emergiu um consenso a partir da década de setenta do século XIX, aliás tal como em toda a sociedade britânica. Este consenso no final da época vitoriana reflectiu-se no facto de, quando o Príncipe de Gales se tornou Grão-Mestre, em 1874, o anteriormente inflamado Conde de Carnarvon transformou-se no seu pacato e diligente Pro Grão-Mestre, enquanto que o antigo rebelde dos anos 50 Canon George Portal se afadigava a trazer a Ordem e a Harmonia às muitas institutições maçónicas que tinham proliferado desde 1856.

A Maçonaria do final da época vitoriana estava instalada na sua posição na Sociedade. As incidências dos debates em várias sessões de Grande Loja eram abertamente relatadas no The Times. Em vilas e cidades de todo o País, as Lojas Maçónicas locais eram partes indispensáveis dos desfiles cívicos, tal como os orgnizados por ocasião dos Jubileus de Ouro e de Diamante da Rainha Vitória. A Maçonaria era suportada por uma fornmidável infraestrutura comercial, visivelmente expressa na firma de George Kenning, que fabricava as caras jóias e paramentos, que permitiam à classe média do final da época vitoriana uma ostentação através da Maçonaria. Kenning também publicou um dos semanários disponíveis nos escaparates das estações ferroviárias, no qual se debatiam temas da actualidade maçónica e se publicavam notícias acerca de personalidades e eventos maçónicos. Este período também constituiu a emergência da Maçonaria como uma das mais abastadas e mais bem organizadas organizações filantrópicas do país.

Algumas notas devem, porém, ser enfatizadas neste quadro de prosperidade, estabilidade e crescimento. Desde logo, a Maçonaria não estava sozinha neste ambiente social. Fazia parte do que foi descrito como o “fraternalismo competitivo”. Por outro lado, o crescimento de várias formas mais racionais de lazer e recreação a partir da década de 1860 fora, em parte, a reacção a uma crise de identidade por parte dos habitantes das grandes cidades industriais. Como poderiam eles mantero seu antigo sentido de comunidade e, no caso da classe média, afirmar a sua liderança cívica? Uma resposta foi escolher entre a esplendorosa variedade de novas actividades sociais. Um cavalheiro de sociedade podia viver uma vida cheia de uma variedade de organizações filantrópicas, empresas comerciais e publicações. Um maçon empenhado podia, similarmente, preencher a sua vida com várias reuniões maçónicas, levar o The Freemason para a sua leitura semanal, utilizar a Biblioteca Maçónica e envher a sua casa de uma variedade de objectos maçónicos. A Maçonaria era apenas uma das formas pelas quais a classe média do final da época vitoriana podia afirmar a sua respeitabilidade e prestígio social e manter um paroquial sentido de comunidade.

Um exemplo deste uso da Maçonaria como forma de expressão de identidade no final da época vitoriana foi a emergência de Lojas destinadas a profissões específicas. A criação de lojas maçónicas deu a classes profissionais emergentes, relutantes em frequentar bares e tabernas, um meio através do qual podiam conviver depois do trabalho, numa atmosfera neutral. Assim, membros do Serviço de Educação de Londres peticionaram a criação de uma loja maçónica própria, onde poderiam confraternizar após as reuniões profissionais. Lojas similares foram criadas por vários outros grupos profissionais. São particularmente dignas de nota as lojas criadas por membros das profissões do sector público, tais como polícias e professores. A posição social destes grupos profissionais era, frequentemente, ambígua: a Maçonaria proporcionava a cada um deles a possibilidade de se reclamar pertencer à classe média.

Como parte deste desejo de respeitabilidade, a religiosidade tornou-se cada vez mais importante. Com a adopção de cânticos religiosos populares, a importância do ofício de Capelão (um dos ofícios de Loja do Rito de Emulação, cuja função é a de pronunciar orações em momentos determinados do ritual) e a aparência pseudo-eclesial de muitos dos novos Templos Maçónicos, a frequência das reuniões de loja parecia quase como comparecer a um serviço religioso.

A atmosfera eclesiástica da Maçonaria Britânica afastou-a crescentemente da Maçonaria em todo o resto do Mundo, muito especialmente do Grande Oriente de França, o qual se tornou, a partir da década de 1870, crescentemente ateu e secularista e se ia transformando no guardião da chama da Terceira República. Estas tensões agudizaram-se com a decisão do Grande Oriente de França de dispensar como requisito de admissão dos seus membros a crença num Ser Supremo, o que resultou na cessação de relações com os membros desse Grande Oriente pelas Grandes Lojas Britânicas.

As duas principais orientações do Mundo Maçónico, que divergiram entre si na década de 1870, ainda hoje se vêem uma à outra através do equivalente maçónico do Muro de Berlim. A culpa por esta cisão não pode ser inteiramente atribuída aos franceses. É justo fazer notar que, enquanto a Maçonaria Francesa se moveu numa direcção, a Maçonaria Britânica adoptou um tom cada vez mais religioso.

É por esta razão que Andrew Prescott tende a olhar o consenso do final da época vitoriana em torno da Maçonaria como persistindo até à dácada de 1960, talvez com as celebrações do 275.º aniversário da Grande Loja Inglesa, em 1967, marcando o seu último fôlego. Tal como em recente trabalho de Callum Brown se defendeu que, no período final da época vitoriana, se verificou um aprofundamento do sentimento religioso popular, que é considerado como tendo persistido até às mudanças culturais da década de 1960, parece que se pode detectar a mesmoa evolução na Maçonaria. Apesar da sua proclamação de que não exige a crença numa particular religião, desde, pelo menos, a década de 1870 que a Maçonaria Britânica se tormou uma muito efectiva expressão do mais alargado consenso moral, cultural e político em que se alicerçou o Império Britânico. Apesar daqueles que eram não conformistas, fossem anglicanos, judeus ou hindus, havia um forte entendimento do que constituia o comportamento apropriado para um leal súbdito britânico, o qual se alicerçava numa espécie de religiosidade instintiva e discurso moral, que caracterizaram a sociedade britânica até à década de 1960.

(Prossegue-se na divulgação do trabalho do Professor Andrew Prescott, que constituiu a sua lição de despedida do Center for Research in Masonry da Universidade de Sheffield)

Rui Bandeira

Publicado no Blog “A partir pedra” em 3 de Julho de 2007

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