Reserva de identidade

Em Inglaterra considera-se uma honra ser admitido maçon. Nos Estados Unidos, ser maçon é uma natural forma de integração na sociedade local e, para muitos, uma preservação da tradição familiar. No Brasil, apesar de subsistirem, aqui e ali, algumas desconfianças, a assunção pública da condição de maçon é natural. Nestas paragens e noutras em que a realidade seja similar, parecerá talvez bizarro, excêntrico, que um dos deveres essenciais dos maçons seja a reserva de identidade dos seus Irmãos que não se tenham publicamente assumido como maçons. No entanto, este princípio continua – infelizmente – a ter justificação.

Séculos atrás, quando as guerras religiosas estavam no auge e quando parecia que todos os contendores seguiam a máxima quem não é por mim, é contra mim, ser maçon, pregar e praticar a tolerância para com quem tinha ideias diferentes ou professava diversa fé, era perigoso. A ideia de haver estruturas e locais em que homens que se deveriam situar em campos opostos confraternizavam e trocavam ideias de forma livre e aberta era, para muitos, insuportável e assumindo a natureza de traição. Nos países católicos, a dita Santa Inquisição perseguia e torturava maçons, com o mesmo zelo e fervor com que perseguia e torturava judeus, bruxas e correlativos.

Nessa época, não divulgar a identidade de seus Irmãos maçons era uma regra absoluta e essencial para a segurança de todos. Mas era sobretudo, um elemento essencial do laço de fraternidade que une os maçons. Aquele podia pensar de modo diferente deste, ou professar uma religião diferente ou até pertencer ao exército inimigo daquele em que este se alistara. No campo de batalha, podiam ter o dever de lutar um contra o outro. Mas – ainda que porventura inimigos – ambos eram essencialmente e sobretudo Irmãos. Ambos podiam compartilhar o mesmo espaço e debater as suas ideias, quiçá descobrindo que, afinal, não eram tão diferentes quanto julgavam. Ambos podiam confraternizar pacificamente, armas pousadas, guardas baixadas e descobrir como isso melhorava cada um deles. Ambos sabiam que, se um deles denunciasse o outro, o denunciado sofreria grave perda, seguramente da liberdade, inevitavelmente da sua segurança, quase certamente da sua integridade física, porventura da própria vida. Em resumo, ambos sabiam que cada um deles se colocava inteiramente nas mãos do outro. E ambos protegiam o outro. Isso era e é Fraternidade!

Nos dias de hoje, ainda há locais onde é perigoso ser maçon. E a mesma regra de reserva da identidade do Irmão maçon tem de ser escrupulosamente seguida. Outros locais há em que ser maçon não será propriamente perigoso, mas poderá ser incómodo, trazer prejuízos. Onde o preconceito contra a Maçonaria e os maçons ainda dura e ser maçon e ser conhecido como tal ainda pode causar danos profissionais ou sociais. Também nestes locais se justifica, e facilmente se percebe que justifica, a reserva de identidade do maçon, a não divulgação dessa condição.

Mesmo nas sociedades mais abertas e com maior inserção social da Maçonaria, mesmo no Brasil, nos Estados Unidos ou em Inglaterra, existem preconceituosos contra a Maçonaria que, se tiverem o poder e a posição para tal, podem subrepticiamente prejudicar um maçon apenas por o ser – embora porventura ocultando o seu preconceito e usando uma qualquer outra desculpa ou justificação… Também nas sociedades mais abertas e com maior inserção social da Maçonaria se continua a justificar uma atitude prudente em relação aos preconceituosos e, portanto, o cumprimento do princípio de não revelar que alguém, que não tenha assumido publicamente essa condição, é maçon.

Uma outra razão justifica ainda o cumprimento deste princípio. A Fraternidade implica o reconhecimento da dignidade do outro em todas as circunstâncias. Implica o respeito pelo outro, pela sua inteligência, pelas suas escolhas. Se um maçon divulgasse que outrem tem essa qualidade, sem que o visado tivesse previamente assumido a mesma publicamente, estaria, sobretudo a desrespeitá-lo, a desrespeitar essa sua escolha. Se o visado não se tinha assumido publicamente como maçon, isso resultava de uma análise do mesmo, de uma escolha sua. Análise e escolha que era seu direito fazer e que só a ele competia fazer. Divulgar que esse que se não assumiu como maçon é maçon corresponde a substituir, a desvalorizar, a desconsiderar, o juízo por ele feito, em favor do juízo (ou da falta de juízo…) do próprio.

A decisão de cada um se assumir publicamente como maçon a cada um pertence. Não pode, não deve, ser apropriada por nenhum outro maçon. E não o é. Em nome do respeito pelo outro, pela sua inteligência, pela sua capacidade de análise, pelas suas escolhas, que é inerente ao elo que une todos os maçons: o elo da Fraternidade. Trair esse elo, mais do que trair o outro seria traição ao próprio e a todos.

In Blog “A Partir Pedra” – Texto de Rui Bandeira (08.01.2009)

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