Instrução em Maçonaria – II

Ao longo destes anos tenho vindo a constatar que em muitas Lojas há muita dificuldade em debater temas, em comentar pranchas, em usar da palavra.

Amiúde essa dificuldade advém de simples desconhecimento do Modus Faciendi, noutras de uma falsa noção que o uso da palavra se esgota no Venerável e que em condição alguma se deve discordar do seu discurso quase proverbial ou tampouco porque simplesmente não há tema.

A instrução começa nestes casos num patamar completamente diferente daquele que é normalmente considerado como o ponto de instrução. Na verdade muitos não se apercebem que é impossível um 2º Vigilante dar instrução, ou melhor que o resultado desse trabalho é quase inconsequente, quando a própria Loja é disfuncional. De que serve estar a dizer como se faz se depois os destinatários dessa informação constatam que não é nada daquilo que ocorre.

Mas centremo-nos apenas nos casos em que a dificuldade é o desconhecimento da forma. Nestes casos os membros integrantes da Loja não usam da palavra, porque não sabem como fazer, não que não saibam falar, não que não peçam e usem da palavra, mas apenas porque quando há um assunto há a dificuldade de falar sobre ele, a inibição de expor ideias, os problemas de emitir opinião, o medo horrífico de discordar.

Nas minhas inúmeras visitas fui podendo constatar isto e comparar com a Loja Mestre Affonso Domingues onde todos os Irmãos emitiam a respectiva opinião, não necessariamente concordante com a anterior , e no fim do debate era sempre possível encontrar plataformas, e sobretudo guardar e interiorizar ideias novas. Como creio que a minha Loja não é melhor que as demais, é tão só distinta isso sim, fui tentar perceber as diferenças. Experimentei apertar com algumas intervenções mais “fortes” na Affonso Domingues e no fim da sessão o resultado era o esperado, ou seja debate aberto franco, sem constrangimentos, sem problemas de que este Irmão é mais antigo ou sabe mais.

Finalmente percebi a razão. Estava, e sempre esteve, ali mesmo à minha frente. Era uma Loja maçónica, onde se valorizavam os valores da maçonaria evidentemente, mas também os valores das pessoas, mas sobretudo se valorizavam as ideias ainda mais que as pessoas que as emitiam. Era pois uma Loja Maçónica.

Assente neste pressuposto pude então começar a combater o desconhecimento. Bastava para tal mostrar que seria possível em sessão, debater ideias, sim tão somente isto. Mostrar que é possível discordar sem ser contra.

Mas chegar a uma Loja e dizer isto, pode ser interessante mas não resolve o problema. Era fundamental encontrar a forma de comunicar. E essa apareceu nos tais 45 minutos de que falei no texto anterior. E era simples, tão simples e singela que tinha que ter estado à minha frente longo tempo e eu não a percebi.

Propus o seguinte método: Intervindo como moderador, embora o poder de direcção dos trabalhos permanecesse na mão do Venerável da Loja, e logo a assumir a responsabilidade do que fosse dito pedi que a cada ideia que eu lançasse um Irmão tomasse a palavra para falar sobre o tema e que imediatamente outro o seguisse para contrapor ou acrescentar. Informando que se fosse para repetir eu cortaria a palavra. Tempo máximo por intervenção 2 minutos. Depois disso eu sumarizaria e lançava o debate sobre aquele tema para mais umas 2 ou 3 intervenções.

Repeti isto para 5 ou 6 temas diferentes e a cada vez o nível de intervenções foi melhorando. Aproveitando a cada um dos temas para dar algumas pistas sobre a gestão de uma Loja Maçónica.

No fim e pela análise dos comentários e do que os presentes disseram, percebi que o modelo tinha potencial. Voltei a experimentá-lo noutras lojas e o resultado foi similar.

Não tenho qualquer dúvida que o que fui fazer a estas Lojas foi uma sessão de instrução. O meu público alvo não eram os aprendizes, nem sequer os companheiros, mas sim os Mestres. Instruir quem tem que instruir.

Quero no entanto deixar aqui presente que não basta ler o que escrevi acima para se porem já a experimentar nas respectivas Lojas. O efeito de ser moderado por alguém de fora é fundamental para a primeira vez ( se isto fosse uma coisa americana teria que ter o seguinte aviso: Não tente sozinho em casa, peça sempre a ajuda de um profissional).

E por aqui ficamos por hoje.

José Ruah

Publicado no Blog “A partir pedra” em 7 de Novembro de 2011

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