A flor da miosótis

A profusão de irmãos, nos quais me incluo, que actualmente ornamentam a sua lapela com a flor da miosótis, também conhecida por - Forget - me not - despertou-me a curiosidade de saber mais alguma coisa acerca do seu simbolismo, dado que a minha idade simbólica de três anos apenas me permite a percepção de singelos aspectos maçónicos.

No que se refere à curiosidade, a explicação para a alargada utilização da miosótis pelos irmãos maçons, em espaços sagrados ou profanos, é bastante simples. É exactamente a mesma que me levou a adquirir esse símbolo e a usá-lo assiduamente. O “fenómeno”, deve-se simplesmente ao facto deste símbolo ter surgido e começado a ser comercializado, com maior assiduidade, no balcão existente no hall das instalações da Grande Loja Regular de Portugal.
No entanto o mais importante era obter mais conhecimento acerca do porquê do uso dessa flor, porque certamente algo mais forte seria do que a sua beleza. Isso levou-me, como não poderia deixar de ser, a pesquisar sobre a flor em geral e sobre a simbologia maçónica da mesma, em particular.
O processo de pesquisa não foi de grande relevância dado que a matéria ou bibliografia existente – ou pelo menos a que consegui obter - não é extensa nem diversificada, designadamente a de maior interesse e credibilidade. Os textos e autores encontrados referem, basicamente, o mesmo conteúdo, com diversos pontos de encontro, embora tenha anotado algumas divergências importantes.
Relativamente a fontes de investigação, gostaria de partilhar convosco um aspecto que considero de alguma relevância. Refiro-me concretamente à importância que teria a existência de um centro de estudos ou biblioteca de assuntos maçónicos a nível da Grande Loja, onde qualquer de nós possa efectuar pesquisas e investigações.

Entrando no tema da prancha, numa exígua abordagem, referirei três aspectos acerca desta flor; o botânico e a origem, as lendas a ela coladas e a ligação simbólica à maçonaria. Claro que esta é a parte que mais interessa neste momento.
Contrariamente ao que julgamos, esta pequena flor são inflorescências terminais, parecidas com a forma de espiga longa da qual emergem formações de flores muito curtas e azuis. Floresce na primavera. A sua origem aponta para a Rússia, embora esteja disseminada por todos os continentes. Gosta de temperaturas baixas e de ambientes de altitude, daí ser muito comum em todos os Andes. A pequena flor amplifica a sua beleza quando se encontra em bouquet.
Quanto às lendas associadas, são elas diversificadas, sendo que algumas recuam à Criação, a Adão, que a baptizou de não-me-esqueças –– para que nunca se esquecesse do nome da pequena flor à qual não havia dado nome quando nomeou todas as plantas do Paraíso.
Outra lenda ancestral coloca a pequena flor na margem de um rio, na qual passeava um cavaleiro medieval acompanhado da sua amada. Ao tentar apanhar a flor para presentear a dama caiu ao rio, afundando-se com alguma rapidez devido ao peso da pesada armadura. No seu infortúnio ainda teve tempo para gritar à mulher amada; “ não-me-esqueças”.
Deixando a curta introdução de enquadramento, falemos de seguida acerca da ligação simbólica desta pequena e bonita flor que adorna as nossas lapelas.
Qualquer experiente maçon se surpreende com a diversidade e número de símbolos associados à Ordem. Esta pequena flor é no entanto um dos mais novos símbolos maçónicos, com perto de seis ou sete décadas e, pelo que se sabe, nem sequer aparece em nenhum ritual. É um símbolo pungente que adquire a sua expansão e força simbólica devido ao que representa de coragem perante a tirania.
Nos anos1925/1926, bastante antes de Adolfo Hitler se tornar chanceler da Alemanha, a miosótis surge pela primeira vez associada à maçonaria, numa convenção anual em Bremen, na Alemanha. A florzinha foi entregue aos participantes com o objectivo de os mobilizar em torno das necessidades de milhares de desemparados devido à grave crise económica que o país atravessava na época.
De igual forma antes da sua ascensão ao poder, já Hitler, no seu livro “Minha Luta”, num dos seus muitos delírios, deixava um primeiro aviso aos maçons alemães, ao afirmar “a maçonaria sucumbiu aos judeus e converteu-se num excelente instrumento para combater pelos seus interesses […]”.
Com a ascensão de Hitler ao poder, que acontece em 1934, a maçonaria alemã anteviu que estava em perigo e em causa a sua sobrevivência, dada a politica, mistura de anti-semitismo e anti maçonismo, seguida pelo ditador, de confiscar e se apropriar os bens dos maçons bem como das Lojas Maçónicas.
A ameaça que a governação nazi preconizava, levou as Lojas a iniciarem um processo de passagem à clandestinidade ou auto liquidação, sem que haja indícios que o mesmo tenha sido determinado por qualquer autoridade maçónica, o que leva a acreditar que o fizeram de mote próprio, protegendo-se individualmente.
A ditadura nazi, em 1937, apoda a maçonaria como “inimiga do estado”, doutrina que se consolidou em 1940 com a proibição de sociedades “secretas”, abrangendo a Augusta Ordem, quer na Alemanha quer nos países ocupados pelos germânicos, onde foram fechadas Lojas lhes foi retirado o direito de propriedade.
Neste percurso, há defensores da hipótese de que a intensão do ditador nazi era acabar com a maçonaria existente, para criar uma maçonaria ariana livre da presença judia. Há ainda quem defenda que o ódio à maçonaria dos ditadores, Hitler e Franco, bem como qualquer outro cabecilha de governos musculados, estava ligado ao facto de não suportarem o espirito livre dos maçons e de considerarem o livre pensamento como uma ameaça.
No que se refere aos dois ditadores atrás nomeados, há quem aponte que a sua aversão partia do facto de lhes ter sido recusada a iniciação na Ordem. Não é um facto esta última afirmação, é sim uma conjectura que não sabemos se está documentada, muito em especial no que se refere a Hitler.
É possível afirmar, segundo bibliografia existente, nomeadamente no trabalho produzido pelo Professor Andreej Karpowicz, incluído em “in The Masonic Collection of the Universiy Library in Poznan”, que ocorreram pilhagens, deliberadamente organizadas, aos maçons e lojas maçónicas e que grande parte do espólio – livros e arte maçónica – de Grandes Lojas de vários países – tais como Holanda, Noruega, Áustria e mesmo França e Bélgica - foram roubados, com intensão de levar à extinção da maçonaria.
Nestas condições adversas e perante tão brutal perseguição, que levou inúmeros II:. a serem enclausurados nos campos de concentração, fez acentuar o instinto de preservação e sobrevivência. Isto obrigou os maçons a adoptarem uma marca de reconhecimento, sem ligação conhecida ao perceptível Compasso e Esquadro, que eram, para os nazis, tão ou mais desprezíveis do que estrela amarela usada pelos judeus. A escolha foi a pequena e discreta flor da miosótis.
A preferência não ocorreu por mera simpatia pela flor, mas com um objectivo óbvio. Este símbolo era já usado anteriormente quer por profanos, quer por maçons, ligados aos movimentos de solidariedade e caridade.
Deste modo, os II:. alemães atribuíram à miosótis um sentido de “escondido” ou secreto tornando-se conhecido só deles, o qual pela sua dupla simbologia – profana e maçónica - seria mais discreta, deixando os maçons a coberto. A miosótis tornou-se então um símbolo de grande utilidade e de reconhecimento dos II:. durante todo o tempo de duração da escuridão nazi, não permitindo que a Luz se extinguisse. A miosótis identificava os irmãos que continuavam a trabalhar na Ordem, em liberdade mas em condições extremamente perigosas, bem como os que se encontravam confinados e sujeitos às maiores sevicias nos campos de extermínio.
No texto de Rosa Maria González Chávez, em “ Hitler y la Masonaria”, confirmam-se muitos dos factos atrás referidos, reforçando que nesse período de obscurantismo muitos maçons foram assassinados indiscriminadamente enquanto muitos outros passaram à clandestinidade. Milhares foram levados para os campos de concentração, onde foram eliminados, à semelhança do que viria a acontecer a milhões de judeus.
Enquanto permaneciam enclausurados nos campos da morte eram identificados com um triângulo vermelho, o que os diferenciava dos portadores da tristemente célebre estrela amarela.
No pós-guerra, em 1947, foi reaberta a Grande Loja do Sol, em Bayreuth, na Alemanha e o pequeno pin em forma de “não me esqueças”, consolidou-se como um símbolo dos Irmãos que sobreviveram àqueles anos negros, para perpetuar a Luz da Maçonaria. Tornou-se de igual forma num símbolo de homenagem aos que foram exterminados pela bestialidade nazi.
No ano seguinte, na primeira convenção anual das Grandes Lojas Unidas Alemãs em 1948, o pin foi adoptado como emblema oficial. (verifico aqui uma divergência de datas relativamente a esta abertura: há duas datas referidas em vários textos, 1947 e Junho de 1954. Inclino-me a aceitar a primeira data, tendo em conta que as tropas vitoriosas integravam militares maçons dos vários continentes, em vários graus e qualidades, logo o apoio ao “renascimento” ou revigoramento das Lojas alemãs seria certamente uma das prioridades dos irmãos que integravam os exércitos vitoriosos. Não me parece credível que a Ordem esperasse mais de uma década para voltar a tomar o vigor anterior.)
Apoiando-me ainda no já citado Professor Andreej Karpowicz, refiro como elemento interessante o facto de a flor da miosótis se encontrar também associada às forças britânicas que serviram na zona do rio Reno no pós-guerra. Reforçando este facto é a constatação da existência de uma Loja, a Forget-me-not número 9035, em Wiltshire, pertencente à Grande Loja Unida da Inglaterra, que adoptou a miosótis para o seu estandarte. Para além disso encontrámos também referências à existência de uma loja na Alemanha com o mesmo nome.
Muito haveria a dizer das vicissitudes vividas pela maçonaria na Alemanha durante o nazismo, mas o objectivo é unicamente a pequena abordagem da simbólica flor da miosótis.
Antes de terminar, apenas mais umas palavras para altear a importância que esta pequena flor tem para a Ordem. Uma simples flor, também conhecida como verónica, representa os melhores ideais e bandeira da maçonaria, como divisa de fraternidade e solidariedade frente à opressão, tornando-se, talvez no pin mais amplamente utilizado pelos Maçons.
Não-me-esqueças: É um apelo e é bom que o tenhamos sempre presente para que, efectivamente, não esqueçamos os mais desvalidos, que necessitam do nosso apoio, nem tão pouco dos que já não estão entre nós e nos aguardam no Oriente Eterno.

Jorge C.

Aprendiz Maçom

10-04-6014


Bibliografia.
http://quenosocultan.wordpress.com/2013/11/13/hitler-y-la-masoneria-parte-1-de-2/
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BOYD, David G. “Das Vergissmeinnicht”. In Philalethes, Abril de 1987.

http://www.tntpc.com/252/philalethes/p87apr.html#Das Vergissmeinnicht

(consultado em 10-04-2014)

GONZÁLEZ CHÁVEZ, Rosa Maria. “Hitler y la Masonaria”.

KARPOWICZ, Andrzeij . “The Masonic Collection of the University in Poznan”, editora Kilo 1992.
LARAN, Eric. “Le Myosotis”. Grande Loge Nationale Française. s/d
RODRIGUES, Felisberto S. “ Para não esquecer! (Hitler e a Maçonaria)”, revista Engenho&Arte, nº 10, Outubro de 2002.