Solidariedade Maçónica

Venerável Mestre,
Estimados Irmãos em todos os vossos Graus e Qualidades,

A ética maçónica, não deixando de ser uma ética de justiça e de verdade é, acima de tudo, uma ética de trabalho em que a craveira com que se mede os homens é a da constância e energia que empregam na prática do Bem. O maçon exige de si mesmo aplicação, empenho e diligência no seu próprio aperfei­çoa­mento moral e espiritual ao serviço dos demais, num trabalho contínuo que só termina à meia-noite, no regresso às trevas do túmulo. De facto, na Maçonaria não há lugar para indolentes.

Num mundo ideal todos seriam maçons - ou a todos, pelo menos, seria oferecida a oportunidade de o ser. Contudo, a dedicação que tal opção de vida exige pressupõe uma disponibilidade que não está ao alcance de todos. Se, por um lado, nem todos, podendo, querem, também não deixa de ser certo que nem todos, querendo, podem.

diogenesNão surpreende que a um homem freneticamente ocupado com o sustento diário não reste tempo para mais nada, ou que a um homem assoberbado pelas próprias necessidades venais não sobre disponi­bilidade para cultivar o espírito ou auxiliar o seu semelhante. Todavia, o exemplo do austero Diógenes indica-nos que a libertação das necessidades quotidianas passa, mais do que pela acumulação de rique­zas que confiram segurança económica, por uma atitude interior de despojamento. O filósofo (que, de seu, tinha apenas a barrica onde dormia, pois que até a única malga que possuía dispensou por desneces­sária ao ver um rapaz beber de uma fonte pelas mãos) só tinha como certo o sustento diário porque as suas necessidades eram parcas e fáceis de satisfazer, pelo que este não lhe era fonte de preocupação. Desta certeza lhe advinha a placidez com que encetava e terminava cada dia, e que lhe permitia furtar-se a uma existência dedicada à acumulação de coisas de que, afinal, não precisava. É esta postura que tão bem ilustrada é pelo despojamento ritual dos metais.

Uns, como Diógenes, satisfazem-se com muito pouco; outros só sossegam se tiverem um tesouro enterrado. A diferença quantitativa entre a tranquilidade de uns e a de outros pode não ser nenhuma; é que, se a inquietação é frequentemente exógena e acidental, a serenidade é quase sempre endógena e deliberada, e não é forçosamente proporcional ao tamanho da bolsa. Com efeito, franqueado o limiar da sobrevivência, o caminho para uma vida feliz e serena passa - estou firmemente convicto - mais pelo dar do que pelo receber, pelo servir do que pelo servir-se, e pelo engrandecimento moral do que pelo enri­quecimento material.

Só quando interioriza estes valores pode o homem permitir-se parar e, de olhos fechados, deixar-se envolver e embalar pela suave brisa do tempo. Pode então, aperceber-se das próprias falhas e dedicar-lhes o tempo e a atenção de que carecem. Sem pressas. A serenidade perante a vida é essencial ao pro­gresso do Homem e buscá-la é, diria, o primeiro pré-requisito de um maçon. Por isso o nono Landmark postula que "Os Maçons só devem admitir nas suas Lojas homens maiores de idade". Esta maioridade é requisito explícito de uma maturidade implícita que pressupõe ter o homem reunido - fruto de um ajuste das suas prioridades - as condições para iniciar os seus trabalhos, o que costuma suceder pela metade da existência, razão pela qual os maçons lhe chamam "meio-dia".

solidariedadePor ser a Maçonaria uma fraternidade, um maçon está sempre disponível para auxiliar os seus Irmãos, e sabe-os sempre prontos a acudir-lhe. Não nos enganemos, todavia, na natureza do auxílio que nos é posto à disposição. Quem ingressar na Maçonaria esperando obter favorecimentos que lhe permitam enriquecer ou subir socialmente encontra-se duplamente equivocado: por um lado, porque pede demais; por outro, porque espera de menos.

É verdade que, até certo ponto, podem os Irmãos mobilizar-se para reunir uma quantia que permita resolver ou mitigar uma qualquer pequena catástrofe, pois pode suceder que um Irmão, num momento de excepcional infortúnio, não consiga, por exemplo, bastar-se a si mesmo. Abusar, porém, desta facul­dade seria como roubar as jóias da coroa para fundi-las em lingotes e vender o metal de que são feitas. É que a riqueza que se encontra à disposição de cada maçon é incomparavelmente maior do que a soma das migalhas que caem no Tronco da Viúva.

Os maçons partilham entre si um imenso pecúlio para o qual todos contribuem, e onde o que cada um tem à sua disposição corresponde a quanto os demais esperam dele: a riqueza que ele próprio dispo­nibiliza. Sempre com absoluto respeito pelas possibilidades e pela liberdade de cada um, a condição de maçon tributa pesadamente e quase sem reservas o mais precioso dos bens de que dispomos: o nosso Tempo. E mau é quando assim não sucede. É este, precisamente, aquele que valorizo como o maior tesouro da Maçonaria: a disponibilidade de cada um dedicar algum tempo a um irmão que dele precise; de devotar alguma da sua atenção a uma causa que dela careça; em suma, de fazer a dádiva de um pouco de si mesmo. Por isso é que só quando consegue libertar-se do jugo do sustento diário e, almejando mais alto, encontra tempo para ter tempo, pode o Homem iniciar o seu percurso maçónico.

O caminho para o Bem e para a Virtude, sendo individual, não tem que ser - nem deve ser! - soli­tário. Começamos em silêncio, aprendendo a dedicar tempo ao nosso próprio aperfeiçoamento, e a aceitar todo o auxílio que nos seja oferecido, pois cada um de nós, ao procurar aperfeiçoar-se certamente encontrou já momentos de dificuldade em que a sabedoria dos Irmãos reverteu o desânimo em ânimo de se suplantar. Só depois de conseguirmos já articular algumas palavras, mais do que mero balbuciar, podemos atrever-nos a oferecer o nosso tempo ao serviço de um Irmão. Mais tarde, fortalecidos pela experiência, polidos como os seixos do rio ao encontro uns dos outros, podemos finalmente voltar-nos para fora do nosso útero e servir todo o Mundo exterior.

Quando, finalmente, esse momento chega, é que a Loja se revela um bastião protector, um reduto, um abrigo, um refúgio. Mesmo quando todos os outros nos adulam com mentiras, podemos confiar que os Irmãos nos digam a verdade tal como a entendem de facto. E quando, confusos, perdidos e cegos, já não sabemos bem para onde é o Oriente, haverá sempre quem nos dê a mão e nos guie através da escuri­dão - ou, à falta de melhor, quem tacteie as trevas connosco.

E assim se desvela em que precisa medida os maçons se favorecem entre si, e que mútua riqueza é gerada por essa troca de gentilezas. De facto, esta disponibilidade, esta solidariedade fraterna, são o que constitui a maior fortuna do maçon, e valem mais do que todo o dinheiro do Mundo.

Disse.

P:.M:. - A:. M:. - R:.L:.M:.A:.D:.